É incrível não?
Como pode o forte se tornar o fraco,
Como pôde se tornar o certo, errado.

Como fui tomar esse tombo?
Onde será que eu errei?
Algo tão almejado,
Tão desejado,
Enfim,
Tombei!
Caí de uma escada de mais de 2900 degraus,
Oito anos em angústia,
Posso ainda ouvir risos dos que me viram cair,
Daqueles que esperavam que caísse.

Estou machucado.
Não! Machucado é pouco,
Sou paciente terminal em uma UTI qualquer,
Estou morrendo e não encontro atendimento,
Dentre tantas fraturas e hemorragias encontro ainda jeito de sorrir,
Para sorrir não é preciso ter coração.
E ainda bem por isso, senão nunca mais sorriria.

Ai que tombo, incrível como fazem pouco de mim,
Mesmo quem eu não esperava, riu, riu por dentro,
Eles negam, mas eu vi, num último vislumbre, sorrisos.
Não sei se tudo era teatro nesses 2900 degraus,
Mas se era, fui bem escalado para o papel de bobo.

Indiferença é o que mais me assusta,
Todos fingem terem sido pegos de surpresa,
O fator tempo também me foi cruel,
Depois de oito anos, não mereci um dia de reflexão.
Não! Não mereci.
Ainda me acusam de ser eu o errado,
Mas depois de subir 2900 degraus não me restava fôlego,
Pelo menos não sozinho, aí era crucial uma companhia,
Qual me foi recusado o pedido.

Recuperação de algo assim demora,
Me exigem recuperação instantânea.
Como poderia eu me recuperar rápido?
2900 degraus, uma morte anunciada, nenhuma placa a frente,
Tudo escuro, o futuro aqui embaixo não brilha,
Daqui de baixo só vejo ao longe, uma luz,
Que, infelizmente, não aponta para mim.

Um poema de desabafo, uma situação a qual todos estamos sujeitos.
Conviver com as grandes perdas não é fácil e nunca será, mas existem meios cruéis de acontecerem. 2900 degraus, oito anos.
Ronaldo Mendes Salles
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