Forca

Enquanto lá fora
Cai uma chuva fina
De molhar bobo

Eu, cá entretido,
Espano o bolor da memória
E retorno a um canto de Minas,

Mais precisamente no lugar
Onde passei meus dias de infante,
Na fazenda de nome gramiais.

Onde o Estado só se fez chegar
Travestido de tributos exorbitantes;
Mas como garantidor de direitos, jamais.

Quando lá chegou, o Estado,
Com sua corrente de aço inoxidável,
Levou à forca a diversidade do Cerrado.

Enfeitado de progresso iminente,
Engoliu as florestas centenárias.
E o resto de esperança daquela gente,

À míngua como os leitos dos rios.
Enquanto, enfeitado de luminárias,
Ressequido, o vale se transforma num lugar sombrio.

Cortado por estradas e redes de energia,
Que ligam e movimentam o niilismo,
O Jequitinhonha definha na perpetuidade da agonia.

Curitiba, 25 de Novembro de 2005