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IDAS & VINDAS (conto)

[Ilustração não carregada]

 



  Personagem única naquele momento. Radiante no vestido longo de grinaldas, belíssima. Adentrar a igreja, ao som da marcha nupcial, era o sonho que se realizava. Altiva e sorridente, nos olhares dos convidados os cumprimentos silenciosos, admirados com o deslumbre da noiva, maquiagem leve realçando a sua beleza natural. Singelo arranjo floral adornado em suas mãos de luvas alvas. Todo aquele aparato em cenário onírico, onde o noivo, trêmulo de emoção, a aguardava. Inebriada pelo evento, sorria felicidades.
 
 Nos recônditos de si mesma, a mente buscava outro cenário, confundindo-a. A pessoa que a aguardava não era a mesma, dividia-se buscando naquele homem, um outro, que sempre a fazia esperar. Na sua luta íntima para se desapegar do forasteiro do seu coração, aceitara retornar com o ex namorado, a quem havia combinado um tempo para resolver alguns assuntos. Sentia-se mal por aparentar usá-lo, esperava ter com ele uma convivência que redundasse no mesmo desejo que ardia por aquele outro alguém, a quem tentava esquecer. Buscava nele as emoções experimentadas com o estranho parceiro, mesmo considerando as diferenças entre as pessoas. Não negava nutrir sentimentos pelo noivo, apenas a figura realçada do outro parecia anuviar sua ótica e seu sentir. Aquele que a desposava era ternura e carinho, dedicado a querer fazer todas as suas vontades. O outro era aventura, tesão, pele, poesia bruta. Por se achar tão segura de si, no íntimo admirava aquele que a fazia desnorteada, a desdizia , a punha à prova. Era uma brincadeira perigosa, e o risco tinha sido um desafio tentador, a fazê-la vencida em suas certezas. Ocorre que aquilo a machucava, feria seus conceitos e convicções, estava se sobrepondo, sendo maior que ela própria. Estava aflita. Não mais se dominava, pelo contrário, o queria noites a fim, sem saber sequer de seu paradeiro, nômade, fortuito. Jamais se prometeram nada, além de se curtirem quando se encontrassem, apenas isso. Vê-lo, estar com ele, era um bálsamo a compensar as ausências, amargas e constantes. A relação com o agora marido era mansa, duradoura, equilibrada, dissonante, inteiramente, do barco à deriva das sensações vividas com o estrangeiro a habitar sua alma, povoando-a de conflitos.
 
 Em uma tarde, passeando na praia, o conhecera. Fatos banais, conversas, curiosidades, até a intimidade que a seduziu. Achava graça naquilo, senhora de si, apostava que o deixaria quando ela bem quisesse , como sempre fez. Enganara-se.
 
 Ensaiava sempre que o recusaria, mas capitulava ao vê-lo, incapaz de se revoltar com seu homem, sentia-se totalmente dominada. Sabia que seria por poucos momentos, por que então desperdiçá-los em discussões? Assim, razão vencida pelo desejo, entregava-se totalmente àquela relação fugaz, sem saber quando se veriam novamente. Por que ela permitiu que ele cruzasse seu caminho e a fizesse refém de sua vida, imprevista, cheias de idas e de vindas? Talvez a necessidade de buscar mais emoção, tentar curtir outras sensações, razão pela qual pedira ao atônito namorado, atual marido, uma pausa no namoro, para repensar a vida, não exatamente nestes termos, para poupá-lo. À época pedira uma distância temporária, queria focar-se nos seus estudos e trabalho. Ele, o agora marido, estava sempre à mão, o estímulo da descoberta já não existia.
 
 Apostara no inusitado e não se reconhecia mais dona de si, de sua vontade, apenas vivia na espera, sem data de retorno. Substituía respostas pelo cativante sorriso rasgado, de quem tem fome da fêmea que veio buscar para saciá-lo intensamente. A arrojava sobre a cama, a desnudando frenético, aquilo a deixava excitada e servil, suas mãos parecendo garras, veias saltadas na pele de ébano, suada, tostada pelo sol.  Curtiam-se vorazmente, até a exaustão.
 
 Era a antítese de qualquer lógica, a tirava do seu eixo, a deixando possuída, antes a fêmea que a mulher racional que julgava ser, marionete entregue àquele gozo indescritível. Ele era o bem e o mal, um destino incerto, que ela sabia, teria que encontrar forças para deixá-lo, e sempre protelando, com receio de que se fosse definitivamente... Todos sempre acreditam-se capazes de se esquivarem do que lhes traz prazer, aparentemente, mas se entregam aos gozos sem darem conta de si mesmos, apenas pelos frenesis de instantes. Reconhecia-se como leviana, a contra gosto. Apesar de entregue àquela paixão doentia, pretendia ser fiel aos compromissos que a levaram ao matrimônio. Que ela estivesse confusa, dividida, tudo bem, o que não consentia consigo mesma era a traição ao esposo, jamais. Tampouco a fidelidade seria por respeito à instituição Família, e sim ao carinho e atenção que se fazia merecedor o noivo, tão devotado a ela.
 
 Resolvera distanciar-se de qualquer possibilidade de aproximação, a distância teria que ajudá-la a vencer suas fraquezas, consolidando resistências para esquecer definitivamente aquela aventura sem futuro. Com o casamento mudaria de endereço, não se permitindo hesitações. De certa forma aquilo a confortava, a fortalecia diante a si mesma, a retomar o leme de sua vida, como sempre fizera.
 
 Tudo aquilo, como em filme se desenrolando em sua mente, nos passos dados da entrada da capela até o altar, onde outro homem, seu futuro esposo, a esperava. Belo rapaz, olhos claros, semblante de paz, vertendo no olhar imenso amor pela noiva, e agora esposa.
 
 Aos poucos, readquiria o autodomínio, tomava a frente de si mesma, experimentava a paz do convívio com o cônjuge, sempre gentil e afável, enamorado dela. Na balança dos seus questionamentos, pesava os dois amores, tão diferentes !  Como uma criança experimentando um brinquedo radical, saindo de seu universo seguro, sentiu-se ao sabor dos ventos, o que a assustou embora a tenha embriagado, agora olhava ternamente o esposo e via que o amava, prezando seu carinho e afeto.
 
 A prova final deu-se por acaso. Ela e o seu amor errante, em encontro casual. Ele abrindo-se no sorriso que tanto a encantou, já não surtia o mesmo efeito da magia da conquista e das novas experiências, havia desfalecido, foi apenas como rever um velho amigo... 

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* publicado em livro na Antologia A FANTÁSTICA ARTE DE INVENTAR HISTÓRIAS, editora CBJE-Rio de Janeiro/RJ, maio de 2013 Distinguido entre os autores com mais de 100 mil leituras nas antologias on line da editora

EDILOY A C FERRARO
28/02/2013