Restos.
Dentro de mim só sobraram coisas.
Pouca esperança.
Pouca felicidade.
Pouco amor próprio.
Pouca vontade de viver.
Um pouco de vontade de sair.
Sou obrigado a trabalhar.
Meu corpo cansa.
Minha mente pesa.
Não sobrou disposição.
Não me resta nada.
Não tenho amigos.
A familia está presente, mas sempre ausente.
Em mim só sobraram coisas.
Um pouco de rancor.
Uma coleção de mágoas.
Tristeza.
A gente vai empurrando com a barriga,
quando menos espera já está beirando o abismo.
Ser sozinho é horrível,
mas não é impossível.
Temos que nos adaptar ao novo mundo.
Corpos nus, aplicativos, touch.
Não é necessário sair de casa.
Temos tudo o que precisamos.
Tudo on-line, conectado.
As pessoas estão vazias,
cheias de amigos virtuais.
Viajando o mundo.
Sem precisar sair da frente da tela do celular.
Não há nada lá fora pra mim.
Restos talvez?
Tá todo mundo fodido e quebrado.
Esperando alguém para juntar os cacos e remendá-los.
Lá fora não tem nada,
aqui dentro tem tudo.
Não preciso de amor, pois tenho um celular.
Tenho milhões de views e seguidores.
Nenhum deles se importam comigo.
Talvez queiram ser eu ou serem melhores do que eu.
Eu existo?
Será real tudo isso?
Onde estamos?
Cade a humanidade das pessoas?
Cada dia menos humanos...
Cada dia que passa perco mais a humanidade que havia em mim.
Sou uma máquina?
Sou hamono?
Em mim só existem restos...
Restos do que foi ser humano!

Leandro Nascimento
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