PELAS RUAS DE MINHA CIDADE

 
Hoje à noite vou passear sozinho pelas ruas de minha cidade
Talvez eu perca o rumo e sofra um pouco pelas tantas mudanças
Talvez não veja a banda tocando no coreto nem as crianças nas ruas
Ai vou entender mais fácil: o coreto acabou e as crianças cresceram
 
Talvez não possa levar a minha carteira de identidade
Vou sair mais tarde sem saudade e sem documentos
Penso que vou encontrar poucos amigos e violões
Vou sentir falta de espaço, falta de abraços e amores
 
Estou certo que hoje será o dia que nem volto pra casa
Se encontrar a antiga e linda professora de histórias
Quem sabe a de geografia, português, inglês ou frances
A gente possa reler o que foi escrito no velho caderno
 
Vou descer a rua dos estados, qualquer um vai servir
Atravessar a rua dos índios e me encontrar com vários
Na rua das cidades do meu interior vou ficar na praça
E na rua dos santos vou pedir aos céus um pouco de fé
 
Talvez não me encontre nem com um bandido ou policial
Vou ver vários bêbados, mendigos, miseráveis e religiosos
Juízes e delegados de Platão estarão dormindo ao som do vento
Enquanto a saudade passeia pelas antigas ruas de minha cidade
 
Os trilhos do velho bonde dormem para sempre abaixo do asfalto
Enquanto passa o velório do último maquinista da Maria fumaça
E o velho político sem ideologia, faz seu último discurso sem alegria
Coisas da minha cidade, tão grande e tão bela, cheia de contrastes
 
Talvez não participe da procissão do Senhor morto há dois mil anos
Nem escute o canto do eixo do velho carro de boi, quanta saudade
Tenho dificuldade para atravessar a rua, tropeço em gentes e carros
Não escuto mais a sirene da fábrica anunciando às seis horas da manhã
 
Vou trocar meu terno e meus sapatos por uma bermuda e andar descalço
Vou colocar uma placa no peito e vender o ouro das nossas minas gerais
Vou ao meu velho barbeiro e raspar os últimos cabelos que carrego
Na volta passo no Jésus da alfaiataria e rasgo a nota do meu último terno

 

Jose Machado Veríssimo
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