Faz-de-conta

(ouvindo Renato Russo – 20.10.2005 – 10:30 da matina. Legio omnia vincit)

A cada hora que passa,
envelhecemos uma hora – eu e você,
nossos amigos, nossas vidas tortas todas elas,
envelhecemos mais uma hora.

E por aí para a semelhança entre eu
e você e todo o mundo.
Porque a minha hora de velhice
é exclusiva, e todos os seus segundos,
todos os instantes descontínuos da minha hora
de velhice são tão próprios,

tão meus,
que chego mesmo a perceber que,
posso vivenciar mais intensamente
as pequenas tragédias e as coisas boas
que passam, como um filme, sem parar,
na minha vida.

É por isso, querida, que aproveito tanto
essas minhas horas. E por aproveitá-las assim,
com tanta gana, tanto tesão,
aproveito também cada momento –
aqueles instantes em que me volto pra dentro
e curto a dor e a delícia de estar bem vivo,

na corda bamba, na fissura de não saber
se tudo isso a que chamamos vida
terá realmente continuidade
no minuto seguinte...

É por isso, meu amor, que relaxo às vezes,
fico bobo, desleixado, babaca,
e pareço fora de sintonia
com as coisas todas.

Pois afinal, o resto do mundo pouco vale, pra mim,
quando estou vivendo intensamente
minha quotinha de existir. Então,
combato em todas as cruzadas santas
que a minha imaginação moleque
e preguiçosa cria, feliz da vida...

Nesse universo interior
sou rei e mendigo,
puta rampeira, agiota,
cavaleiro andante, um bicho, uma árvore,
gigolô frustrado, um cientista, sei lá!,
santo anacoreta, artista de circo...

mas sempre, sempre sempre sempre,
uma criança gulosa que

Afinal,

redescobre sempre, nessa hora que passa,
a alegria de viver plenamente todos os papéis
contigo - apenas contigo.

Deixa então esse teu ator destrambelhado
ficar assim. Que esse mundo real,
essa terra dos adultos, esse lodaçal
não é pros poetas, não serve
prá quem ama de verdade...

Deixa eu ficar
no meu mundo de faz-de-conta, querida,
no meu universo verdadeiro, onde
além de mim – fica sabendo -
só cabe mais você.