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AS VOLTAS QUE A VIDA DÁ... (conto - parte final)

[Ilustração não carregada]

 
 Passou o resto da noite semi acordado, praguejando pela insônia inusitada. Assim que o encontrasse tiraria satisfações, o chamaria à razão, findaria por vez aquele relacionamento, não era confessionário para ouvir lamúrias inesgotáveis, recomendaria a ajuda de um profissional, psicólogo ou um psiquiatra, o convênio médico da empresa oferecia esses serviços. Vê-lo e evitá-lo já estava se tornando uma rotina chata, sentia-se constrangido, afinal, apesar de tudo, penalizava-se pela situação dele, a reclamar saudades da esposa e dos filhos. As noites dele deveriam ser tediosas, ao retornar ao lar e ver-se só. Como nunca se casara não poderia sentir falta de ninguém a esperá-lo, mas, quanto a ele... Merda, o infeliz, mesmo a distância, continuava ocupando sua mente, pior, fazendo-o sentir-se responsável, tirando-lhe o melhor do sono, no amanhecer estaria um trapo, sem concentração para o trabalho. Nas conversas, verdadeiros monólogos exaustivos onde fingia estar atento, ouvia sempre o reprise do filme de sua vida, as lágrimas saudosas dos seus parentes, o lastimar do pouco dinheiro, segundo ele o fator provável da separação da mulher, rememorando passagens felizes, sorvendo em soluços disfarçados, aos goles pausados, a bebida que compartilhavam. A condição financeira era fundamental, repetia ele, restando ao parceiro apenas o concordar com a cabeça. Se tivesse recursos seria feliz, com certeza, não havia maiores problemas domésticos, julgava amar e ser amado pelos seus. Momentos em que olhava para ele e afirmava convicto, eu te ajudaria também se conseguisse ganhar alguma fortuna, reconhecendo nele o seu único amigo, agradecendo-lhe em olhares e gestos de apertos de mãos a solidariedade. Fazer o quê? Apenas emprestar por momentos a sua presença, mesmo distante, pensando em outras coisas, para vê-lo menos infeliz. Sabia que tomando alguns goles ele ficaria relaxado e dormiria melhor, não se angustiaria tanto nas saudades cruciantes. Raros instantes a sentir-se menos egoísta e mais solidário com alguém, embora reclamasse com seus botões pelo sacrifício indesejável. O tempo tudo cura, filosofava consigo mesmo, haveria também de ajudá-lo, bastando ter paciência para purgar aquela dor, chaga ainda viva, exposta. Neste intervalo, parecia já abnegado, estaria presente (sempre que não desse para escapar) para ouvir o martírio do outro.

Apenas uma ducha rápida e um café preto para reanimá-lo para um novo dia, afastando o cansaço da noite interrompida. Tinha que enfrentar a situação, falaria com ele de forma definitiva, não poderia tolerar mais incômodos como o vivido naquela madrugada, seu rendimento profissional estaria prejudicado pela falta de concentração que a ausência do descanso ocasiona. Jamais permitiria que alguém ligasse no meio da noite, sinal de más notícias, levando a paz de quem atende. Tentaria não ser duro em demasia, apesar do nervosismo, relevando as dores já suportadas pelo companheiro. Contudo, seria claro e objetivo, não toleraria atrevimentos tais, não bastasse a perseguição diária para acompanhá-lo nas saídas do trabalho, sendo cada vez mais difíceis as escapulidas incólumes da presença indesejada, agora via telefone, superava tudo, excedera os limites do abuso e da sua tolerância.

Curiosamente, objetivando oportunidade para vê-lo e expor seus argumentos, procurou não evitá-lo, freqüentando no fim do expediente o mesmo bar, não o encontrou, nem foi encontrado por ele, que era o mais comum. Chegou a pensar que poderia ter acontecido alguma coisa, aquele telefonema naquele horário, a voz dele alterada e efusiva, será que teria cometido alguma loucura? Esperaria por notícias, coisa ruim é instantânea, todos comentam. Poderia ser que estivesse melindrado, envergonhado pela ousadia de incomodá-lo daquela maneira, deixando de procurá-lo. Ficou por ali algum tempo, bebericando devagar a sua cerveja, dando espaços para algum comentário, e nada. Tudo corria sem novidades, para alívio seu. Caso tivesse acontecido alguma coisa com o amigo não se perdoaria, fora ríspido com ele, talvez bastasse uma palavra amiga para se evitar uma tragédia, arrepiava-se preocupado. Não era religioso, o que não o impedia de ter remorsos. Lavara as mãos como Pilatos com Cristo, aquilo o aterrorizava, lembrando-se das lições de catecismo. Negar-se a dar um apoio, conforto de algum gesto de fraternidade era um ato que castigava seus princípios, temia pelo sucedido, aflito de apreensões por sua atitude desumana e egoísta. Doía a cabeça, resultado de uma cefaléia do descanso interrompido, além da consciência pesada. Deixara a garrafa sem terminar de beber, coisa rara.
Desatento, seguiu o seu caminho normal, sem desvios como fazia para despistá-lo, passando em frente à casa lotérica do bairro onde uma faixa anunciava o prêmio milionário conquistado por um freguês da casa, pensando com seus botões na sorte do contemplado, ganhador único da mega sena, uma verdadeira fortuna para não ter mais com que se preocupar.
Dias depois, já convencido de que o amigo se tocara da mancada de persegui-lo, pois nunca mais se viram, recebeu, via departamento de recursos humanos da empresa, um cartão postal do Alencar.
Na foto, tirada de um desses lugares paradisíacos, que bem poderia ser no Caribe, uma pose de uma família feliz e sorridente, Ele junto com a esposa e os dois filhos...


 “Caro amigo, tentei te avisar, consegui a duras penas o seu número de telefone, mas reconheço que abusei de sua amizade o incomodando tanto... Como dizia, não tenho problemas familiares, apenas a falta de dinheiro, que, graças a Deus, já não me preocupa.

Saudações do Alencar.”

(ler a 1° parte)
 

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EDILOY A C FERRARO
21/04/2013