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AS VOLTAS QUE A VIDA DÁ... (conto - 1º parte)

[Ilustração não carregada]

O toque do telefone em horário imprevisto, altas horas, tinha tudo para ser coisa séria e urgente, demandando preocupações. Sonolento, tateando em busca do óculos, parecendo ainda dormir, por fim atendeu. Mil hipóteses ocorrem nestas interrupções em horas descabidas, todas prenunciando tragédias e assustando quem as recebe, com ele não foi diferente.
- Quem está falando... O que é? Aconteceu alguma coisa, que horas são?
Mal ouviu a voz sôfrega do outro lado, impertinente e mal humorado (odiava ter o sono interrompido), desligou em seguida, dando pouca ou nenhuma atenção ao interlocutor eufórico. Lembra-se de ter despachado o inconveniente com frases balbuciadas, por pouco não perdendo a paciência, batendo o telefone. Se fosse do seu feitio o mandaria para aquele lugar, não sabe nem por que se conteve; razões tinha, e de sobra.
Virou-se de lado, buscando retornar ao sono, que já não vinha, intercalando sonolência inconsciente com o despertar, teria sonhado?
Alencar era um colega de serviço, alguém que não fazia diferença alguma, mas, por serem trabalhadores da mesma empresa, utilizando-se o uniforme padrão, ainda que em departamentos diferentes, acabaram por estabelecer um contato eventual, nada de muito sério, a princípio. Numa conversa ocasional em um bar, arrependendo-se de ter dado trelas aos murmúrios do infeliz, selaram compulsoriamente a amizade, deixando de serem apenas conhecidos, ao falar de si mesmo estreitava os laços, a confidência é própria de amigos. Começava a sua tortura, de natureza reservada não era dado a se expor com ninguém, também não entendeu por que aquele homem se sentiu tão à vontade para relatar todo o seu drama pessoal. Era um mala, a bem da verdade, apenas uma tolerância fraterna para lhe dar alguma atenção. Vivia deprimido, a mulher o abandonara levando o casal de filhos, em poucas linhas de um bilhete dava passe livre ao marido, acusando-o de intolerável, entre outros adjetivos pouco recomendáveis. Era a sinopse de mais um casamento esgarçado na poeira da convivência num histórico intramuros da intimidade de um casal. Ele dizia não saber o porquê daquilo, deduzia que era pelo pouco rendimento dele, único provedor da casa, e a questão financeira, sempre ela, a atormentá-los. A esposa esconjurada o lembrava diuturnamente que os recursos eram escassos, havia sempre necessidades extras, aquilo o aniquilava, sentindo-se impotente para reverter os fatos e ter um ganho satisfatório. As conversas entre os dois davam-se no compartilhamento de algumas cervejas, conta dividida, ambos solitários, isso quando não houvesse algo melhor a fazer, momentos em que mudava de rumo e de bar, esquivando-se sempre que possível do acompanhante de conversa de uma nota só.
Problemas? Já tinha os dele e não enchia os ouvidos de ninguém. Arrependera-se de ter dado o número do telefone, aliás, nem se lembrava disso, como será que ele soube? Alguém invadiu a sua privacidade e o entregou, imagine, não bastasse aturá-lo vez ou outra, e agora receber uma ligação imprópria àquelas horas! Deve ter tido uma crise, será que cometeria alguma sandice? Debalde o estado emocional parecia ter equilíbrio, exceto quando o usava como confessor para desafogar as mágoas, ai era um Deus nos acuda nas lamentações intermináveis. Não se sentiria culpado, era maior de idade e responsável por suas atitudes. Apesar de estar sempre triste, parecia empolgado na ligação, rindo e cantando, entusiasmado. Talvez efeitos de alguma medicação antidepressiva para liberá-lo do marasmo e da tristeza. Bastou perceber a voz inconfundível, nem bem o ouviu, e desligou. Felizmente não houve insistência, não tornou a ligar, como comumente fazia ao persegui-lo pelas ruas nos seus passos, buscando sua companhia.

(continua na 2° parte)

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*** Selecionado para publicação em livro de antologias de contos, editora CBJE - Rio de Janeiro, RJ.

EDILOY A C FERRARO
18/04/2013