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AUSÊNCIAS & TEMORES (conto)

[Ilustração não carregada]

Ao levantar-se refugou o afago da gata em seus pés, mostrando intolerância, a bichana saiu contrafeita num miado arisco. Ergueu os braços para se espreguiçar, estava moída, tivera uma noite aborrecida, pelo calor intenso e o tédio. Levantara várias vezes, buscando água gelada. Olhava para a folhinha na parede, era quarta-feira, havia 10 dias que o marido se ausentara, nunca ficara tanto tempo fora. Não estava se controlando, afinal, sem notícias, pois naquele ermo esquecido por Deus, nem o celular tinha sinal, virara apetrecho sem utilidade. 

Casaram-se e resolveram morar ali. Apesar dos incômodos, seria, na pretensão deles, algo provisório, não precisariam pagar aluguel, visto que a humilde propriedade fora deixada pelos pais do marido. 

Para tal, ela ficaria sem atividade profissional, visto que o local não oferecia empregos, além de serviços domésticos. Ele era representante comercial da empresa, vivia em viagens, geralmente se estendendo além  do prometido. 

Aquilo a estava deixando intranqüila, sempre trabalhara fora, agora via-se obrigada a pequenas tarefas domésticas, entediando-se. A ausência do companheiro a fazia injuriada, chegando a pensar besteiras: Tenho sinceras dúvidas sobre as atividades dele nas cidades visitadas, homem é tudo igual, não podem ver rabo de saias...Não acredito que ele fique sem mulher por tantos dias.

Justamente por aquelas cismas que tantas vezes a visitava, que resolvera assistir uma sessão no terreiro, queria saber das andanças do marido em tão prolongadas ausências. Nunca tinha freqüentado tal ambiente. Motivada por uma prosa à toa com uma vizinha freqüentadora habitual. Não confessara suas dúvidas com a moradora ao lado, era reservada, pois no entender dela, roupa suja se lavava em casa. Iria como companhia, por pura curiosidade.

- Pois tenho certeza que vai gostar, tem  “ entidades” ponta firme, ajudam a arrumar emprego, dão conselhos para os negócios e para a saúde.

Lá estava ela, sentada em um banco de madeira, surpresa com o ambiente, cheio de imagens de santos. Naquela noite a “gira” seria da esquerda, os homens trajavam roupas escuras e vermelhas. As mulheres participantes iam com roupas vermelhas berrantes, saias longas e enfeitadas, com colares, pulseiras e adereços nos cabelos, além da pintura carregada nas faces. 

Aberta a sessão, com os convidados em pé, passava o defumador esfumaçando o ar, onde os da assistência rodavam em volta, ela apenas fazia o que via nos demais.  E acompanhava silenciosa os movimentos dos presentes, a cantoria era geral. Os atabaques enchiam os ares com a percussão ritmada.

Aos poucos, cada pessoa que se encontrava no centro do terreiro, parecia entrar em transe, movendo-se ora para trás e para a frente, falando em voz estranha, dando risadas e cumprimentando-se entre si. As mulheres rodavam com suas saias armadas, piteiras nos lábios, olhando charmosas para os machos da assistência. 

As pessoas eram atendidas por fichas e hora de chegada, tinham que entrar descalças na área determinada, onde seria dado o atendimento.  Nervosa, ela pensou em desistir, aquilo tudo era muito estranho. Depois nem sabia o que fora buscar ali, nem como iniciar sua conversa com a “entidade”. Só não desistiu por que não queria voltar sozinha, havia pouca iluminação nas ruas, e ela morava a quadras de distância, a vizinha, já acostumada, não iria perder a entrevista por ela. Aquietou-se, constrangida, decidida a tomar apenas um passe para não passar despercebida.

Quando finalmente fora chamada pelo número da senha, viu-se cumprimentada por uma mulher, figura extravagante, com risadas soltas, ostentando uma taça de champanhe, oferecendo a ela, que não sabia como agir.

- Então menina, em que minha força pode te ajudar ?  

Ante o mutismo da consultada, num riso escancarado, falou-lhe aos ouvidos: O pernas de calça anda aprontando, minha menina ?

Diante ao assombro dela, sem querer abrir-se com receio de ser ouvida por estranhos, fez sinal de que não sabia...

Pois bem, coloque um marafo pro meu homem, ai deu o nome dele para a cambone ( pessoa que assessora anotando as orientações), uma rosa vermelha para mim ( deu o seu nome), e deixa com a gente... Se ele tiver mentindo, você fica sabendo logo. (Gargalhadas.) Senão, terá uma notícia que mudará para melhor a vida de vocês, tirando-lhe suas inquietações, aliviando seu coração. 

Saiu dali mais grilada do que quando havia entrado. Não disseram nem que sim e nem que não, mas a pulga estava colocada atrás da orelha. Somando a angústia da solidão e falta de carinho do companheiro ausente, parecia que tinham falado tudo o que ela já desconfiava. O que a abismava era como aquela mulher sabia de sua dúvida, se ela sequer abriu a boca? Ou será que tinha falado e nem se lembrava diante de tanto nervosismo?

Caminho de volta, a vizinha interessada em saber as impressões dela, perguntando, fazendo com que ela se esquivasse com evasivas.  Confidenciar-se com estranhos, nunca. Lugar pequeno, falta do que fazer, a língua corre solta. Não queria ser tida como a traída na boca de ninguém. Aquilo seria tratado com reservas e dentro das paredes de sua casa, nenhum sinal para a platéia sequiosa por escândalos.

Apenas dois dias depois ele chegou. Falando muito, animado com suas notícias de vendas, sequer percebendo o desânimo da companheira, desconfiada e infeliz.

A pretexto de buscar suas roupas para por de molho, procurou pelas  cuecas, tentando aspirar perfumes femininos nas camisas, cheirando-as, e alguma pista de eventual relacionamentos do parceiro. Revirava as peças afoita, torcendo para não encontrar nada que depusesse contra ele. Queria recuperar a sua paz íntima, abalada por tantas suspeitas.

Depois de banhar-se e comer alguma coisa, buscou por ela, enamorado e saudoso. A princípio pensou em negar-se a ele, e expor toda a sua angústia por esperá-lo por tantos dias,  porém, carente, achou que não estaria jogando com a melhor tática, dizem que quem não tem em casa busca em outros braços.

Nos momentos íntimos não conseguia perceber traição, pois demonstrava um “apetite” de esfomeado, a deixando feliz e saciada,  não sendo possível tanto ânimo caso ele estivesse com uma vida dupla.  Assim ele passava alguns dias com ela, até que retornava a pegar a estrada, deixando-a solitária.

Os dias corriam, períodos de esperas e de chegadas, noites inteiras imaginando como ele estaria, e com quem possivelmente pudesse estar, revirava-se incomodada no leito de casal. 

Por tantas hesitações, via-se frente a frente com uma cartomante, precisava ter certeza, a dúvida a estava deixando maluca. No reservado da casa daquela mulher, moradora distante dela, sentia-se mais à vontade para se abrir. No terreiro, as consultas aconteciam sem privacidade, apesar do barulho existente e das conversas serem feitas “ao pé do ouvido”, razão pela qual nunca mais retornou àquele local.

Diferentemente da consulta anterior, com a entidade, a consulente era simpática, extrovertida e a deixava confiante. Juntos tomaram um café com bolachas, antes de iniciar a leitura do baralho normal e nas cartas do tarô. 

As cartas não denunciavam nenhuma traição do companheiro, pelo contrário era um homem trabalhador e entusiasmado com seu serviço e devotado esposo, mas algo surgia naquela leitura que intrigava aquela senhora. Parecia um bloqueio, um impedimento de enxergar mais claro. Acabou por confidenciar à consultada, que não sabia o que ocorria, porém pela primeira vez tinha a visão obscurecida. Algo não estava correndo certo. Desculpava-se, não pretendendo sequer cobrá-la pelo atendimento que não achava a contento. 

- Algo está impedindo que eu veja mais longe, por acaso você ficou pendente de fazer alguma coisa? Vejo com insistência uma figura nas cartas, desejando algo de você...

Parecia que acordava, ouvindo intimamente uma gargalhada, estremeceu-se, lembrando do que fora pedido pela Pomba Gira, uma garrafa de cachaça para o parceiro dela e uma rosa vermelha para ela.

- Então cumpra, falou a cartomante decidida. Depois retorne, as coisas ficarão mais claras.

As exigências foram cumpridas discretamente, e, assustada, deixou de procurar dentes em cabeça de cavalo, esquecendo-se de tantas asneiras e desconfianças.

   Pela manhã do outro dia, um leve enjôo, uma tonteira breve.  A notícia não poderia ser melhor, estava feliz, percebendo-se grávida. 

   Teria algo mais sério com que se preocupar...

 

 

 

 

 

 

 

 

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*** Selecionado para publicação em livro de antologias de contos, editora CBJE - Rio de Janeiro, RJ.

EDILOY A C FERRARO
09/03/2013