Lua elétrica

O percurso que percorro custa trinta centavos
E o peso que carrego em minhas costas suadas
É também o brilho branco das estrelas paradas
Na ponta de halógeno canudo.

Onze horas da noite, em breve será madrugada
Já não se veem esperanças jogadas na calçada
Ouve-se só o murmúrio das famílias caladas
Sob puro halógeno canudo.

Mães coruja se despertam e põem o pé na estrada
Vejo Erínias navegarem em naves roubadas
Vejo as nuvens de silício em sua roxa jornada
E a voz do halógeno canudo.

Cataventos rodam amores vãos insensatos
Celulares apocalipsam novas naturezas
E alaúdes e morcegos cantam a eterna beleza
De viver o halógeno canudo.

E as solidões barrocas que desfilam santas
Em pretéritos perfeitos gritam como mudos:
"Lascia ch'io pianga mia cruda sorte, ó moribundos,
Que procure a eterna luz do halógeno canudo!"

Penúltimo verso: a parte em italiano é da ária "Lascia ch'io pianga", da ópera Rinaldo, de Handel. Segue parte do texto:

"Lascia ch'io pianga mia cruda sorte,
Che sospiri la libertà!"

Tradução:

"Deixe que eu lamente meu cruel destino,
E que procure pela liberdade!"