Pombo morto

Estava na rua, jogado num canto,
Seus olhos ternos como um acalanto.
A chuva fraca e os cães em pranto.
Aquele pombo era o espírito santo?

"Que Deus o tenha", disse a menina,
Mas Deus não parecia querer tanto.
Seus anjos eram os garis na esquina.
Aquele pombo era o espírito santo?

De onde veio essa estranha beleza?
De que sarjeta?, indago-me, enquanto
O vento lhe penteia com sutileza.
Aquele pombo era o espírito santo?

Então já não existem mais milagres,
Embora apóstolos existam tantos...
Eles não vendem a realidade.
Aquele pombo era o espírito santo?

Pois como estátua, singelo e sereno,
Fechou os olhos num sorriso leve -
Teria agora a paz que nunca teve.

(Que espírito naquele pombo esteve?)

Num dia chuvoso, um encontro frio.

São Paulo SP

Philidel
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