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Vila Joaniza

[Ilustração não carregada]

Vi um rapaz comprando drogas em frente à boca,
na Espigão, e saindo de fininho, no celular,
pra atravessar a Icaturama,
os olhos do aviãozinho rondavam o quarteirão, atentos,
olhos que pararam em mim e se tranquilizaram,
era apenas a professora do bairro...
Escutei um rapaz contar do dia em que fumou
um baseado e percebi que havia algo mais nele,
uma agitação constante, uma índole pululante,
algo mais pesado, como pedra ou pó
Observei as gentes que andavam na Yervant:
mulheres com crianças, velhos cheios de artroses,
malandros, desempregados, meninos de chinelo ...
Porteiros, pedreiros, vendedores, dométicas,
e outros trabalhadores honestos
nos assentos das lotações e ônibus cheios,
finas linhas de expressão e rugas sofridas,
voltando pra Domingos Fernandes,
Olavo Ferreira Prado, Nicolini, Americanópolis...
Notei os jovens descolados do hip hop,
os bem vestidos do pagode,
os funkeiros em roupas apertadas e sensuais,
gingando pelas calçadas
da Estado, Facchina ( que chamam de Facchine),
Fanfula, Correio e Carlota...
Vi os rapazes do tráfico nas esquinas,
usando falsificadas roupas Oackley
óculos Juliet de camelôs, celulares receptados...
Percebi as adolescentes com bebês nos quintais,
mulheres de trinta com cara de quarenta
paradas nos degrais de suas casas,
notei varizes, furúnculos, manchas no rosto,
no povo morador sofrido e apinhado,
nas subidas íngremes lá pelos lados da Sideral
Casas mal acabadas, cachorros sujos de rua,
cortiços entre escolas e igrejas
crentes da Assembleia e ex-presidiários, lado a lado...
Após às 18h, rapazes e moças bonitos
estarão andando pelas maiores avenidas
limpos, arrumados e hormonais,
camisas da moda, bonés, calças justas
cabelos de jogador de futebol e chapinhas...
estes vão lotar a Eid Maluf, de mochilas e cadernos,
na procissão diária deles até suas escolas,
caminhando muito mesmo,
ao lado de moradores que voltaram a estudar
depois de adultos, muito cansados
com dificuldades de aprendizado e sem autoestima,
tudo por um conhecimento, um diploma,
namoro, amizades ou drogas,
tem adolescentes em liberdade assistida
indo só por que o juiz ordenou
Observo, há anos, analfabetos tendo que sustentar
vários filhos e ex-companheiras,
mulheres solitárias, miseráveis
ou extremamente bêbadas
buscando suas crianças das EMEIs e EMEFs,
esposas e mães, expulsando filhos e maridos
drogados e viciados de suas casas
ou vendo-os partir,
e os tráficos trazendo diversão e trabalho,
aliciando jovens ingênuos, ambiciosos ou perdidos...
Vi toda uma geração pedir atenção,
clamar por um olhar de compreensão e carinho
dos educadores mal pagos do bairro
Vivênciei e testemunhei professores de olheiras
respondendo à queixas formais
de responsáveis por alunos indisciplinados, degenerados,
e bandidos, pais e parentes se achando cheios das razões
Escrevo essas linhas porque diariamente
o que procuro enxergar lá
é amizade, suor e solidariedade
Eu vivo ali euforia e ódio pela Educação,
meus dilemas pessoais, paixões e sucessos,
vivo meu amor pelos alunos,
o carinho e admiração de uns e
a humilhação que passo nas mãos de outros,
vivo a vida que a moça estudada
  - agora mulher -
saída do Brooklin Paulista escolheu
Mas hoje não!
Hoje só tenho um peso no coração
Refleti o quadro mais crasso e
mais autêntico da mais carente realidade:
Vila Joaniza ... nua!


 

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Vila Joaniza, a minha Canudos!
Bom final de semana!

Elisa Gasparini
03/06/2011

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