SONHO CINDERELA ( conto )

SONHO CINDERELA  ( conto )

 
 
 
Incômoda chuva a me deter num boteco, espremido, observando desatento o universo ao redor.  Justificar estar ali, só consumindo alguma coisa, além do transtorno do guarda-chuva molhando o chão do bar. Nem pensar em comer aqueles quitutes secos, velhos, que, aliás, eram visitados por pequenas moscas.
 
 Café morno, distraído, mal servido, na azáfama do empregado tendo que atender diversos pedidos simultâneos, quanto a mim, um refugiado naquela embaixada, sitiado pelas águas copiosas que desabavam. Espera sem sentido, chuva intermitente, alternando chuviscos com bátegas, inibindo aventuras de sair naquele tempo instável.
 
 Esperar haveria, já me conformava.  Olhava desalentado para meu companheiro, indesejável  mas necessário, um trambolho, diria. Carrego, atado a mim, sem ele me encharco de vez, já que ele me assegura a proteção superior do corpo, deixando à própria sorte do joelho para baixo, nunca usei galochas, porém o uso delas se justificaria naqueles momentos. Menino, as via no quarto de meus avós, de borracha serviam para revestir externamente os sapatos, impedindo que se molhassem, hoje caiu em desuso, peça antiquada.
 
 Embaça a vista opaca no diáfano copo americano do café passado em coador de pano, já que o de máquina expressa me causa ânsias. Encolho-me no vão do balcão, tentando manter-me alheio ao burburinho das gentes que se apinhavam fugitivas da inimiga comum, a chuva. Espera sem sentido, água fina e rala, ou em nutridas gotas, intervalo do nada.
 
  Ah, como chateia aquele mudo companheiro, úmido e escuro. Em tempo indefinido, prudente tê-lo, contudo sua presença é um enfado. Em troca da proteção, devo carregá-lo, aberto ou fechado, trabalhando ou descansado, sina cruel. Por vezes o esqueço em algum lugar, basta o tempo abrir, faço isso sem remorsos, apesar do prejuízo.
 
  Como sou dado às cogitações surreais, acusava em pensamentos aquele traste de roupa preta com esqueleto de varetas, culpando-o pelos males do mundo. Estranho, quando não há ninguém, criamos fantasias, dando asas à imaginação e vozes aos inanimados, quase inicio uma polêmica com aquele pobre. Fomos salvos, eu e ele, por alguém de carne e osso e muita necessidade de conversar. Por pouco não me achariam um louco em brigas com o guarda-chuva, quieto e pendurado em seu lugar.
 
  O rapaz tinha expressa vontade de partilhar seus anseios. A mim, entre a raiva nutrida por um interlocutor passivo a parecer soberbo em sua indiferença, melhor ceder os ouvidos a um mortal, afinal, lembrava,  aquilo era um intervalo do nada, inútil e despropositado.  Como diz o ditado popular: melhor ouvir que ser surdo.
 
 Veja o senhor... ( começou o rapaz, tentando estabelecer um diálogo, que antes era um monólogo.)
 Ela é bonita, atraente, uma fofura, mas...prostituta, ( baixou levemente a voz não querendo chamar a atenção de mais ninguém) não dama que se leve à sério, entende ?
 Se ela tivesse me tido que me queria apenas por também ser sozinha, eu aceitaria, quer dizer, apenas para rápidas relações, afinal ninguém é de ferro e a carne é fraca ( sorria, como se desculpasse).
 
Pagar não é o problema, era só pôr preço e tava negociado, desde que não fosse o olho da cara, não sou rico, embora, repito, ela é um pitéu,  digo, uma gostosura de potranca... ( olhando-me inibido) quero dizer, uma formosura de mulher, o senhor entende, é homem vivido. Para mim (  dizia com certo orgulho) nunca pôs preço, foi por amor sempre.
 
 Mas observei que a danada pretende algo mais, não se satisfaz com minhas visitas amiúdes, já quer estabelecer compromissos, horários, cobrando-me satisfações de onde andei e com quem andava... ah, vi que a coisa tomava outro rumo !  A droga é que ela me fascina, aquele quarto dela é o céu na terra, leva-me às alturas dos prazeres... Deveria ter observado que o brilho no olhar dela não era o mesmo dispensado para qualquer um,  eu a encantava sem querer fazê-lo, é a tal química, coisa de pele... ( preocupado comigo em me fazer entender)  nos entendemos sexualmente, certo ?  ( creio ter acedido com a cabeça, indiferente, evitando interrompê-lo, não que o enredo me cativasse, mas pior seria emitir opinião em assunto a mim tão estranho )  
 
 Pois então, aquilo que começou como um transa despreocupada, passou a ser cada vez mais freqüente, praticamente todos os dias. Também sou responsável, não nego. Imagina que até roupas levei para me trocar e de lá sair para o trabalho ! É bom ter a atenção dela e a roupa limpa e lavada, eu resido em república, cada qual cuida de suas vestes, lavando e passando. E também, ao sair do trabalho, ligo, caso ela atenda está dado o sinal de que está livre, a minha espera, sem nenhum cliente. Então ela não atende mais ninguém, ficamos juntos o resto da noite.
 
 ... um instante só...
( foram as últimas palavras direcionadas a mim ,virando as costas para atender o celular que estava no modo silencioso, vibrava sem emitir sons.)
 
 Pude observar que se justificava, dando a localização de onde estava e porque demorava, tratando carinhosamente de meu bem à voz impositiva, dando satisfações e que não demoraria muito, apenas esperava a chuva amainar... Não esperou, saiu com a garoa forte e sumiu sem se despedir.
 
  Voltei no tempo, satisfeito com minha atitude no passado, quando, num romance rápido, também senti que encantava a minha parceira, mas sabia que a postura era uma falcatrua, disfarce romântico e oportuno.
 
 Soturno, irônico e despudorado, antes que a noite se fosse como um sonho e a carruagem reluzente fosse abóbora, vesti-me num átimo, seco e lacônico, e a deixei livre ( ou nos deixamos), antes que fosse tarde.
 
 E num rasgo de satisfação íntima, em fingida dignidade, sai do bar e enfrentei renitentes chuviscos, aberto e protegido pelo fiel escudeiro.
 
 
 
 
 
 
 
 



 

 

** Publicado em livro em antologia de contos, editora CBJE, Rio de Janeiro, RJ.