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A CASA

[Ilustração não carregada]

           O sol se apodera do dia.  Nuvens pretas se formam, querendo tirar seu brilho natural da claridade e a hora se mistura à paisagem.  Descrevê-la seria ver com olhos de um pintor o que normalmente fazem quando se pintam algo indescritível. Dou espaço entre o verde das árvores frondosas e esvoaçantes, por que o vento atiça sua beleza e joga essa imagem para o contemplador. Imagem de um reflexo interior. Nada como estar entre o sentido do espetáculo visto.
          Uma caneta implica em escrever o que você sente quando a noite chega rapidamente diante dos seus olhos. Talvez como se quisesse retratar o que a câmera não pode captar. O sentimento visto no momento exato em que o dia e a noite se encontram e se despedem.
         Vejo uma casa, descrevo-a nos mínimos detalhes. Desde sua fundação e sua história. Vivenciar o crescimento do seu dia a dia, como se o quadro dito anteriormente fizesse parte dessa construção. O dia e a noite também passou por ela. Uma casa antiga, detalhada por tijolos grandes e arcaicos, misturando sua cor neutra com as cores amarelas dos girassóis. O tempo não a incomodou, apenas gastou parte de sua vida solidificada. Rugas entre as paredes demonstram quanto tempo ainda vive, e quantas histórias por ali passaram.
        Escrevo sobre o sol que apodera o dia e a noite que apodera a casa, e, a casa que abriga as pessoas que avistam a arvore. A casa caiada de amor e dor. A casa e a árvore, ambas com uma função única de durar para uma eternidade sólida.
          Colocar no papel o que se vê é algo raro. O que vemos e o que lemos é o resultado imparcial do que estamos sentindo no momento exato dos fatos. Há um acordo entre o ser e o estar, entre o ver e o escrever. Notifico o sol e a noite, identifico-me com aquela casa caiada de lilás, que tem uma escada para o sótão. Desço ao porão em busca de cacos, cacos de vidros, cacos de pensamentos, cacos de um tempo que não se desfaz em segundos. Cacos velhos e novos. Vejo livros amarelados, vejo livros que contém parte de nossa vida. Vejo móveis antigos, janelas que dão para o vento, roupas que foram de um passado distante.              
          A casa habita uma menina de cabelos grandes, com cachos prateados pela lua, cabelos dourados pelo sol, de pele morena e pés descalços. Uma menina que sonha, que canta, que chora ao ver vida lá fora.
          A casa... A casa que habita sonhos de uma geração inteira.
          Ah! Essa casa caiada de vento. Vestida de pensamento. Revestida de histórias barrocas e com movimento. Existe um espaço entre a menina, a casa e a arvore. A árvore que acolhe a menina, e a casa que lhe dá abrigo quando a noite chega.
          Reescrevo os sentimentos existentes nesse cenário, ressalto a cor da lua que ilumina os passos do tempo que habitou a casa. Pensamentos felizes e infelizes deram seqüências ao dia a dia das pessoas, quebrando a monotonia secular dos que passaram por ela.
         Tento dar um fim a esse desfecho, mas a casa, a árvore, a menina, vão ser partes históricas de um livro qualquer, esquecido em algum canto de um sótão. Outros rumos tomaram antes que o envelhecimento se apodere do corpo e que as vidas existentes nela morram e perpetuem para todo o sempre.
         Um alfarrábio definirá as emoções contidas nesse conto.
         Apenas o alfarrábio saberá com certeza a exatidão dos sentimentos da casa, da árvore e das pessoas nelas inseridas e não citadas nesse texto.
 
Soraia

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Um texto, um conto, uma prosa,
só sei que fiz. na alma

Cigana
13/05/2010