ENCONTRO! finais da década de 60.


 
 
- Bons olhos te vejam, Salvador!
Como vai a Maria?
- Obrigado, senhor doutor,
vai bem e A de vossa senhoria?
- A minha? vai bem, com a Graça do Senhor.
E os miúdos também! São uma alegria!
Então, como foi a lua-de-mel?
- Lua-de-mel? Diga antes, de fel!
 
- Foi sempre a trabalhar,
pois o casório deixou-me depenado,
e agora, as bocas são a dobrar!
Valeu-me o amor dedicado
de Maria. Por ela, não me importo de cansar!
- Ainda bem rapaz, trata-a com cuidado.
É jóia que deves usar com delicadeza e arte,
pois não se encontra em toda a parte!
 
Então, não foste ao cinema, sei lá...
Talvez ao Porto, ao Palácio de Cristal?
- É como lhe digo, senhor doutor, fiquei por cá!
O casório fez-me bem e não mal,
Mas, deu-me rombo e a vida está má!
E para quem não tem capital
como o senhor doutor,
a falta de um vintém ao corpo traz dor!
 
- Sabes, rapaz? Tu és um homem de bem!
Ainda há dias, disse à minha Senhora:
O Salvador vai casar com a Maria D´Além,
conheces? Sim, sim, é uma moça que mora
prós lados do meu irmão. É linda de morrer e tem
mãos de fada. Diz o meu irmão, que a sua nora
disse, que ela sabe costurar, bordar e pintura,
e teria bom futuro, se houvesse acesso à cultura!
 
 - Bondade da senhora Dona Maria.
Talvez, bondade de seu irmão, cunhado
do senhor doutor. Mas, vivo com mais alegria
e apesar do gasto que me vai dobrado,
estou ansioso que chegue o fim do dia,
e a casa eu chegue, sempre desejado!
E já esqueci  o tasco do Maneta,
que era meu vicio e da conversa da treta!
 
-  Sim, claro. E meninos?
- Bem... é preciso ter calma.
A vida está cara e não há dinheiro para mimos.
Temos tempo e há que ganhar corpo e alma
e depois, logo se vê. Não é tempo de desatinos.
E quando houver mais folga e menos trauma,
É claro, que Maria, filho quer...
E eu também, que há-de vir, seja homem ou mulher!
 
- Bem... até à próxima. Um abraço à Maria do Rosário.
- Adeus, até mais ver. Beijinhos aos meninos,
e cumprimentos à Dona Maria do Calvário!
 

santos silva
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