Asas



Asas
 

Acordei com o gosto e o impulso
De retomar um tempo onde
Podia voar ao encontro dos
Meus mais abissais desejos...

Lembrei-me que era no sótão
Que costumava guardar minhas asas,
Subi as escadas no compasso
Do meu coração,
Na velocidade e voracidade
De reviver e viver emoções...

Encontrei-as, estavam lá num canto,
Amareladas, descuidadas,
Quebradiças, despedaçadas,
Mas ainda lá...

Diante de tal visão, meus
Olhos se inundaram d’água,
Das mais salobras,
Das mais doídas,
Mas, ainda assim, esperançosas...

Tomei-as nas mãos numa tentativa
De senti-las minhas de novo,
De consertá-las,
Mas quanto mais as tocava,
Mais se despedaçavam...

Tentei reconstruí-las
Porque queria àquelas,
Só elas sabiam todas as rotas e
Atalhos  que me levavam
À felicidade...

Logo, percebi que não seria possível,
Dei um passo atrás como que tentando
Distanciar-me de tantas emoções que me
Tomavam, devastavam,
Estava sentindo-me misturada,
Eu, meus sonhos e as asas,
Numa simbiose que me atordoava...

Aos poucos o silêncio me acalmava,
E fui me sentindo mais segura e forte,
E percebi, então, que  elas estavam ali,
O tempo todo em mim,
Tatuadas em minha pele...

Agora sim, vou ao encontro dos meus sonhos
Adormecidos,
Mas jamais esquecidos,
Minha força e meu desejo são minhas asas...

Regina Costa
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