Odeia-me Paixão

Odeia-me Paixão

 
Um intenso proliferar de palavras cruas,
a violência do desnudar da doçura das sílabas.
O que era suave e agradável chama incendiou-se,
devorou-se numa ardente fogueira.
Quebrou-se o lapidado encanto,
rompeu-se em cacos, enchendo tudo de decepção.
Lembranças quase que sagradas,
intocáveis fotografias, todas esquecidas e rasgadas.
Queda do ídolo, o desfazer amargo da fantasia,
do altar de deusa ao poço sem fundo.
Não mais os brancos pássaros do céu,
mas apenas alvos de obstinado caçador desperto
descobrindo que com a mesma força com que ama,
também odeia; a mágoa envenena o coração.
Então a surpresa, percebendo
que ataca o que tanto defendeu,
vendo nisto falta de sentido.
Na frustrada dor da perda,
transbordar o copo de amargura,
vertendo doce vinho em acre vinagre.
Inspiração às avessas,
e o coração não quer sair de dentro de si,
não quer ficar vazio,
Resiste quase sem forças
ao agressivo ataque do ódio viril,
por fim desfalecendo, abatido.
E onde havia luzes, fizeram-se sombras,
as cores vivas tornaram-se pardas,
perdeu-se o brilho.
E por não conseguir manter o sonho,
por não mais poder alimentar a fantasia,
então a desilusão,o engano, a acusação sórdida,
a pesada injúria,a perda fazendo-o sentir-se lesado.
Traído em suas promessas de felicidade,
a tristeza deteriora-se em amargura,
e a ironia em sarcasmo.
Algo de demência: aquele que destruiu
não quer carregar a culpa pela destruição,
Quer isentar-se, não quer compartilhar
o estereótipo de algoz, deseja ser vítima.
Penaliza-se consigo,autoflagela-se com críticas,
transforma  belo quadro em tosco rascunho.
Mais do que enganado, engana-se,
mutilando a verdade,
alimentando a ilusão da mentira,
criando neurótico roteiro,
dirigindo desgraçada peça,
vitimando-se de seu próprio ódio.
O suposto combate vitorioso trará em si
uma alma de grande derrota,
cegueira das paixões.
Sucumbirá ao destempero do rancor,
tombará mortalmente ferido
pela agressiva vingança.
Incineradas as doces lembranças
e os afetivos sentimentos, 
restaram  aniquiladas cinzas,
ínfimas partículas 
que ainda com um impulso de sórdido
desprezo atirará ao vento.
Então, pensando-se curado caíra doente,  
fugindo da dor,
terá ido de encontro a seu aguilhão.
Desesperando-se em insanidade
ao perceber densas cicatrizes
que não consegue apagar.
Imagina-se como o moribundo
que rasteja pelo árido deserto sedento de sede.
Por fim, acalmando-se
por não suportar
sustentar a própria fúria,
guardando as lágrimas,
Mas ainda desviando-se
de qualquer possibilidade de consolo,
mantendo sólida virilidade.
Percebendo-se só, reconhecendo o vazio,
calando o grito de revolta
que ecoa dentro de si,
Tentando aceitar
por uma questão de sobrevivência,
buscando restaurar as exauridas forças.
Sentindo-se anestesiado,
vendo um horizonte adormecido,
consolando-se por estar vivo.

Gilberto Brandão Marcon
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