Para C.

Nos restolhos da vida, encontrei centelha de mim,
Que teima amar,
Como se carnes podres houvesse sentimento e prazer.
Sangra boca,
Ossos estão quebrados,
Olhos já não sabem mais o que é linha horizonte, céu e mar.
Prostrado, desprotegido, na banheira cotidiana,
Depois dos esgotos e da ira de Charlotte Corday.
Estágios da transição, órgãos funcionam,
Embora contrariado,
Pedaços de mim suspiram vida, por ti,
All that jazz, Show deve continuar, então…
Quantos passos até negociação e a condescendência?
Pedaço de mim, dilacerado, entre Chico Buarque e outro,
Procura álibi, entre Djavan e outro?
Por que, natureza, suspira tua mortalha?
Qual espelho procurar, se não resta nada para reagir?
Converso, com quiabos, sobre Deus.
Lua transversa, noite estrelada, teima em surgir.
Os espíritos estão a viajar.
Bay, bay, tristeza; encontro outro lugar.
Noite alta, sorrindo,
Vou indo, assim, pensando em mim,
Vou estrada a fora, sozinho,
Contemplando noite e caminhos, carmesins,
Acompanhando sombras dos mourões das estradas,
Que repetem, um a um, dois a dois, três a três.
Pela estrada, que é terra, noite alta, vou assim.
Meu coração sangra, pois te deixei, não vou te encontrar, no fim.
Passo a passo, num alabastro, encontrado num deserto sem fim,
Perto da cidade do Cairo, entre açucenas e jasmins,
Escrevo teu nome, e pronuncio mil vezes, e guardo assim,
Mas você não está aqui.
Estou apenas eu, como sempre estive, desde que nasci.

Uma descrição de paixão

Bagé, 22 de dezembro de 2006