I - Cartas ao Silêncio

I - Cartas ao Silêncio

“Seja na figura, seja na paisagem, eu gostaria de exprimir não algo sentimentalmente melancólico, mas uma profunda dor. Em suma, quero chegar ao ponto em que digam de minha obra: este homem sente profundamente, e este homem sente delicadamente.”

“O que é que sou aos olhos da maioria – uma nulidade ou um homem excêntrico ou desagradável –, alguém que não tem uma situação da sociedade ou que não a terá; enfim, pouco menos que nada.”

Vincent Van Gogh- Cartas a Théo


Sinto que o meu tempo neste mundo paira em outra dimensão, submetendo-se apenas para a alma das palavras, como se nada me restasse além das profundezas inalcançáveis; entre a arte da escrita e os sentimentos da natureza humana. Ainda escrevo sobre você, pois, apesar do meu tempo ser tão frágil, há uma relação profusa que pertence à eternidade.  Se você soubesse como o meu tempo está reduzido a essa matéria que o fez um incontestável Triunfo da Civilização, e, por esta única razão; eu tenho escrito, sistematicamente, o que poderia ter dito – quando fui embora sem olhá-lo –, tal como o excêntrico, o sensível, o desprezado perante a sociedade, sim, o seu eterno Van Gogh.  Meu amor, meu único amor, luz de inverno a cair sobre as frontes apaixonadas, minha noite estrelada... Mas escrevo-lhe a palavra amor, e, imediatamente, sinto a dolorosa necessidade de pintar à escuridão da realidade: Verdadeira e infindável ilusão, meu sonho morto...

Quando a chuva se ajoelha ou estende os seus braços, como um discípulo de Cristo, entornando às suas orações sobre todas as casas, inevitavelmente, deito-me sobre a vida materna, associando a cadência de seu coração, numa memória plena de profundidades intangíveis. “Minha mãe, meu amado Théo, o coração dele ressoa silenciosamente... Penso que ele está sob a Igreja de Pedra, ouvindo a chuva, fitando os vitrais, elevando o pensamento até se tornar lembranças entremeadas por Réquiem...”

 

Enquanto escrevo com o incomumente nervo da alma, dando pouco espaço para o alinhamento da razão, pergunto-me, agora, o que você tem realizado em sua vida: deita-se com o seu Maurice Hall, envoltos em dosséis constituídos pelo corpo do tempo?  Richard, o Triunfo da Civilização, houve algum dia, não quando esteve com a sua mente em Acrópole, algum dia já chorou por não ter apreendido o significado da vida?


Escrevo com pétalas de girassóis em meus dedos e, provavelmente, sua Camille Claudel penteia o cais negro de seus cabelos, seu melancólico Maurice, levantando-se da cama, afasta uma pequena mecha dourada, de modo que seus rostos estejam tão próximos, o que poderia ser uma imagem refletida em meio às colunas de Partenon – os alunos que ainda se detêm diante das antigas sombras dissipadas no momento em que sua frase –, lacônica ou impecável, condizia para as sensações de aflição, e algumas mães que, nos dias de hoje, são senhoras de rara beleza em sacrifício ao lar, borrifando as folhagens de samambaias ou antúrios, lembrando-se, principalmente, quando os maridos estúpidos adentram pela casa; o que era para ser dito através daqueles olhares de camponesas apaixonadas, e todos, em absoluto, respiram exaustos, ou, talvez, exclamam para si mesmos: Richard está sentado em seus aposentos, viajando pelo mundo, amando estrangeiros, derramando virtudes e lágrimas? A quem?

 

https://www.youtube.com/watch?v=CqRigvjNCao

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Eloisa Alves
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