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Balde

Eu só penso em ser reduzido a um estado de não existência

E vejo que as angústias não vêm me derrotando desde agora,

Mas já há tempos que nem me recordo

Nos labirintos estúpidos da memória humana...

 

Não, eu não sou só mais um pessimista existencialista.

Eu não sei definir onde tudo começou a dar errado,

Onde escolhi a rota do fracasso e só peguei emaranhados disso;

Mas foi arrogante da minha parte criar expectativas e analisar a moral e imoralidade,

Sendo que tudo é relativo, portanto, caótico...

Os axiomas de controle criados pela humanidade me incomodam,

Contudo, não tenho preparo para a anarquia.

O que resta para mim, então?

 

Eu sinto aquela frustração de quem correu e cansou, mas nunca chegou ao objetivo.

Mas, enfim, talvez eu nunca tenha tido um

E, de fato, creio que não.

Eu pressinto que me acomodei nas teorias e me especializei em imaginar

E neste processo, esqueci de praticar tudo o que podia

Até essa ideia se converter em fraqueza e medo, ou simplesmente ser muito tarde.

Eu venho experimentando, por conta disso, o sabor indescritível

Das pequenas vergonhas que criaram uma colossal bola de neve em meu ser

E hoje vão me aniquilando internamente, porque não sei executar

As tarefas mais simples e que todos podem.

 

A preguiça que tenho é de tudo: desde escrever essas linhas

Até de realmente entender e conviver com as pessoas.

E fico parado esperando alguma simpatia ou consolos que nunca chegam

Vindos de terceiros que apenas não me entendem

E criticam com a ferocidade de tigres...

"Você é azarado"; "Você enxerga tudo da pior maneira!"; "Quanto drama!"; "Isso se resolve, menos a morte..."

(Falas assim que tencionam solucionar traumas tão arcaicos

E no final, só os pioram.).

Eu penso em sumir, não por depressão, mas por não enxergar saídas

Para problemas que não começam e terminam em meu ser.

 

As coisas são pautadas num egocentrismo calado

Em que ficamos, porque isso é necessário aos outros,

Mas não necessariamente a nós mesmos.

Eu sinto vexame de mim mesmo e das limitações.

Aprendi, de uma forma bárbara, a não demonstrar fraquezas,

A nunca incomodar os outros e opostamente,

Passei a ter aquela síndrome do super herói, o qual, mal aguentando a si mesmo,

Tentou ajudar os demais sendo forte, compreensivo e amável...

No fundo, isso não era uma inverdade, mas também não uma desmentira,

Tendo em vista que este era meu desejo, mas não sei se tinha forças para ser assim

E passei a esmagar não só a mim mesmo, mas a quem eu queria ajudar...

 

Eu jamais conseguirei.

Não posso sequer colocar tudo em papel ou o que quer que seja

Para simbolizar o que me consome há décadas.

Sinto-me um fracasso ambulante e só cometi erros,

Porque acertos deixam legados e qual foi o meu?

O que tentou ser amigo? O que foi egoísta? O que não amava ninguém?

Aquele que quis ser amado sem ter amor?

O doente que pensava que era invencível e quando a enfermidade

Veio reclamar-lhe, se encolheu num canto e se perguntou: O que fiz para merecer isso?

Não, não o sei... Nem antes e nem hoje.

 

Eu não me sinto parte do mundo,

Visto que o mesmo parece rejeitar aquilo que eu represento.

Eu estou derrotado pela sensação de que estou sob críticas

Constantemente e não sou e nem poderei ser entendido,

Porque, em suma, ninguém o é!

E vou sofrendo a cada copo de bebida, fingindo sorrisos

E ficando melhor ou pior enquanto bêbedo,

Porque é quando tenho sono e posso virar para a parede e adormecer.

 

Insônia escrava dos meus tormentos

Que mostram que não só me feri, mas mutilei tantos também

Só por apresentar quem eu era.

E então, sem identidade, acabei por ser raso

Com pretensões de não o ser, mas sendo...

No final, não fui ninguém, porque a vida é superestimada

E nem todos estão para a felicidade.

 

Um doente que está já se arrastando e percebe a vaziez de tudo.

Vejo meus alunos com tanta esperança e eu me pergunto se já fui assim?

Prevendo mais quedas do que escaladas, considerando que a sociedade, o universo conspira para isso,

Por mais que tentemos um otimismo oco.

Não, isso não é irrealístico:

Isso é o que construímos e idealizamos e quando experimentamos,

Assim como um bolo recém saído do forno,

Não gostamos do resultado, mas comemos para não morrermos de fome

E dialogamos que isto tudo é insolúvel, fora da governabilidade...

 

Eu estou e sou como quem já fez e gostou e agora enjoou e não há mais nada.

Ficando cego, mas com gentes dizendo que não é o fim,

Sendo que já morro de tédio estando com visão...

Ficar é o sacrifício que se faz para que fiquem bem

Quando não estamos e assim gira o planeta...

 

Fui suportando muitas coisas que me levaram a esse ponto.

Eu sou o balde que recebeu gotas durante tempos e agora transbordou...

Quando as coisas chegam a isto, cabe-nos ter a dignidade de reconhecer o quanto podemos ser desprezíveis,

Assim como me sinto e colocar (ou tirar) o paletó

E deixar-se vomitar no mesmo balde que recebeu todo o traste

Que fui, sem o saber, ou ignorando, durante trinta e cinco anos

Em que o prazer foi passageiro e as cargas, nem tanto...

 

 

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Thiago da Silva Carbone
30/10/2020