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IMUNIDADE

Ninguém havia percebido, que toda tarde, eu fugia para o Posto de Gasolina, Léo Brax, aqui do lado de casa, para comprar biscoitos da Elma Chips - Fandangos de Queijo, o meu preferido.
Eu comprava escondida, porque não dava para comprar pra todo mundo.
Trabalhei à minha consciência, para que aceitasse o fato, de que eu precisava de um prazer, que fosse só meu, e que não tivesse a obrigação de dividir tudo, todos os dias, com os outros. Que eu já me esforçava muito nas tarefas domésticas, e que compensação existe para isso... Que eu já preparava o café da manhã, o almoço, o café da tarde, o jantar, fazia pizzas, rosquinhas... O que tinha demais, comer o biscoito de minha preferência, sozinha , no meu quarto, sem que ninguém ficasse me perturbando?!
Mas o Caíque, muito esperto, passou a me investigar, e aí tive que comprar um pacote para ele.
Entretanto, deixei bem claro:
- Vou te dar biscoitos hoje, mas amanhã, compre com o seu dinheiro, eu sei, muito bem, que você tem moedas, que o Itarnizinho te dá para lavar o prato dele .
Foi assim que conquistei a imunidade da minha própria consciência para comprar biscoitos, todos os dias, sem oferecer a ninguém.


Então, ritualmente, deitava na cama, ligava minha série preferida - Como Defender um Assassino - e comia os biscoitos, lentamente, para que não acabassem rápido demais, porque senão seriam dois pacotes.
Os dias foram passando, fui ficando sem vergonha e acabei assumindo minhas idas ao posto. E quando o dinheiro me faltava, apelava para o Sampaio:
- Sampaio, compra o “Biscoitinho do Posto”.
Ele comprou no primeiro dia, no segundo, no terceiro... Mas depois, descobriu que eu já estava ficando viciada.
- Chega de “Biscoitinho do Posto”! Todos os dias! Isso vai acabar te fazendo mal!
- Não vai não! Está escrito no pacote que é assado, não é frito.
- Não pode!
- Poxa! Eu já estava até gostando de ter imunidade para alguma coisa.

Selma Nardacci

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Selma Nardacci dos Reis
19/08/2020