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CONTINGÊNCIA OLFATIVA ( conto- parte final)

[Ilustração não carregada]

Foi no meio do expediente que fora requisitado no terceiro andar, vencendo lances de uma escada, atendeu o chamado. E, para surpresa de ambos, eram colegas de trabalho. Ela como uma das auxiliares de escritório, eram duas. E ele, o de serviços gerais, no sub-solo, com uma escada de alumínio para trocar uma lâmpada. Olharam-se surpresos, cumprimentaram-se  pelos olhares,  a perfumada e o sem banho, fatos lembrados gostosamente  tempos depois de se conhecerem e rirem –se daquilo, mais íntimos e amigos. No refeitório romperam o mutismo dos dois, sentando-se com o bandejão lado a lado, sempre ela  se avizinhando dele, por coincidência, possivelmente.

Passaram a disputar juntos o coletivo no final de cada dia, por vezes ele cedendo o lugar a ela no ônibus apinhado, que então  carregava no colo sua pequena sacola com o macacão de serviço, que gentilmente passou a levar para a casa e lavá-lo visto ter onde secá-lo em seu quintal, e sempre o livro, seu fiel companheiro. Tinham o mesmo destino na ida, e desciam em locais diferentes no retorno. Ele em um bairro central, em casa de cômodos, cortiço, onde alugara um quarto que era também sua cozinha, com o banheiro coletivo disputado pelos moradores a desaforos a cada manhã ou noites; ela, moradora com os pais em um bairro da periferia, mais distante. Eram de origem humilde, não havia constrangimentos entre eles, sabiam-se lutadores em ringues onde as esperanças nutriam  forças de dias melhores  na batalha cotidiana, a dela estendida  pela freqüência em um curso supletivo noturno, onde não raro cochilava nas aulas. extenuada pelo cansaço de  levantar  tão cedo.
A rotina dos inevitáveis encontros, os aproximou além de colegas de trabalho e de mesma condução diária, já faziam pequenos passeios juntos aos finais de semana e feriados, unidos na solidão de jovens pobres,  apaixonaram-se , e passaram a dividir uma casinha juntos, com banheiro privativo nos arrabaldes,  mutuamente se ajudando. Enfim, as leituras tiveram serventia prática, e  ele as usava para auxiliá-la na conclusão dos estudos.  Afinal estavam na mesma estrada, povoada de sonhos e de árduos e meritórios  avanços, unidos e se fortalecendo na caminhada, deixando seus mundos se penetrarem e compartilharem a  mesma jornada.

Com a cabeça enevoada de shampoo,  lembrando que Já era passado a disputa por uma vaga no banheiro coletivo, pequeno e expressivo sucesso. Ria-se ao demorar-se um pouco mais sob o chuveiro com  água  morna e reconfortante, sem receios das queixas dos apressados, ou do risco de sentir-se sujo pela ausência de um banho, causa do início de sua vivência com a companheira, a quem agradecia o incidente e as mudanças em sua trajetória. Isso o remetia à reflexão da necessidade de observar os pequenos passos e agradecer as conquistas, simples que sejam...






 

 
 
 
 


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CONTO SELECIONADO PARA PUBLICAÇÃO EM LIVRO NA ANTOLOGIA: E AÍ, COMO FICAMOS ? EDITORA CBJE, RIO DE JANEIRO-RJ, outubro de 2019.

EDILOY A C FERRARO
08/11/2019