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MULHERES NOS ROMANCES DE MACHADO DE ASSIS - crônica de ialmar pio schneider

 
 
MULHERES NOS ROMANCES DE MACHADO DE ASSIS
 
IALMAR PIO SCHNEIDER
 
     Quando permaneço, por instantes, analisando os trinta e um volumes da coleção dos livros do mestre do Cosme Velho, um sobressai entre os demais. É dele que me aventuro a discorrer, ou melhor, de onde retirei motivos para alguns versos de minha lavra. Acrescento que foram impressões de leitura que já me proporcionaram escrever algumas modestas poesias.
     Há muito anos, li pela primeira vez, o romance Quincas Borba, de Machado de Assis, para o qual compus dois sonetos, sendo que um aproveitando o seu final, e que é assim: “Eia! lamenta dos dois recentes mortos,/ se lágrimas tiveres pra chorar,/ se só tiveres risos a lhes dar/ pois ri nem que sejam risos tortos.”// Só quem amou assim deveras, sabe/ que se pode morrer também de amar,/ e o afeto que às vezes não nos cabe/ é uma desgraça que nos vai matar.// “O Cruzeiro que a divinal Sofia/ não quis fitar, como Rubião pedia,/ está tão alto pra não discernir/ os risos e as lágrimas dos vivos”,/ que sofrem cá no mundo por motivos/ alheios ao seu modo de existir.
     Este soneto foi extraído, em parte, do maravilhoso romance de Machado de Assis, Quincas Borba, no enlevo final da leitura.
     E o outro, descrevendo o tema romântico do livro, intitulei de Amor Proibido - Pobre Rubião que quis o amor proibido,/ o louco afeto que não era seu,/ e sem desabafar num só gemido/ nos mares da loucura pereceu.// Sofia há de lembrar o seu pedido/ que sem saber por que não atendeu,/ e o distante cruzeiro enaltecido/ continuará brilhando lá no céu,// como chamando a cativante bela/ que calma se aproxime da janela/ e que venha fazer-lhe companhia.// E o vento desfolhando as lindas flores/ há de chorar incompreensões de amores/ por uma voz pungente de elegia...
     Pudera haver tanta imagem em páginas de romance de quem sofreu por amor ? Basta ler o Prólogo da 3ª Edição, escrita pelo próprio Machado de Assis: “A segunda edição deste livro acabou mais depressa que a primeira. Aqui sai ele em terceira, sem outra alteração além da emenda de alguns erros tipográficos, tais e tão poucos que, ainda conservados, não encobririam o sentido.
     Um amigo e confrade ilustre tem teimado comigo para que dê a este livro o seguimento de outro. - “Com as Memórias Póstumas de Brás Cubas, donde este proveio, fará você uma trilogia, e a Sofia de Quincas Borba ocupará exclusivamente a terceira parte.” Algum tempo cuidei que podia ser, mas relendo agora estas páginas concluo que não. A Sofia está aqui toda. Continuá-la seria repeti-la, e acaso repetir o mesmo seria pecado. Creio que foi assim que me tacharam este e alguns outros dos livros que vim compondo pelo tempo fora no silêncio da minha vida. Vozes houve, generosas e fortes, que então me defenderam; já lhes agradeci em particular; agora o faço cordial e publicamente.” 1899. M. de A.
     O perspicaz crítico literário Franklin de Oliveira, assim se expressou a respeito do romance, falando de algumas mulheres que povoam as obras de Machado de Assis: “Também aquela imagem do negativismo machadiano encontra contestação em suas figuras femininas. O único ser generoso, em Quincas Borba, é uma mulher: Fernanda. E generosas são as suas mulheres, mesmo quando nos parecem emaranhadas numa oculta lascívia, como Capitu, Fidélia, Flora, Virgília e a Sofia, que passeia o seu mistério nas páginas deste romance.”
     Nenhum outro escritor brasileiro perscrutou tanto a alma feminina quanto Machado de Assis, fazendo com que as personagens fossem atraentes e misteriosas. A leitura dos seus livros sempre vale a pena, considerando o estilo elegante e a escrita escorreita. E por isto mesmo é sempre atual e exigível para os vestibulares. Leiam-no !
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   Poeta e cronista - E-mail: menestrel@brturbo.com
   Publicado em 12 de maio de 2004 - no Diário de Canoas.

 
 

 

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Ialmar Pio
21/10/2018