Site de Poesias

Menu

Velha


Eu mal, sentada no hospital
Esperando um resultado
Fala nem sinal
Garganta inflamada, peito dolorido
Corpo escorrega da cadeira de metal
Chapado esperando a chapa
Cabeça pende
de um lado um enfermeiro
digita rápido
do outro
velha, olhar reto, na cadeira de rodas, sentada ereta
cheia de peças de roupa a lhe cobrir o corpo
fazia frio, ainda é cedo, metade do dia, da manhã que tinha
 Sol
mas ali não brilha no longo corredor, branco, como qualquer hospital
eu olho, seu soro não pinga, parado, cerro o cenho
ensino história, não sei nada de bolsas de soro
penso, minha mente voa, minha irmã, mais velha sabe
e lembro, hoje é seu aniversário
não digito, depois, é cedo, todos trabalham
Eu olho, a velha, ela, nem pisca
entristeço
me vejo como se...
espelho
sem filhos, sem netos, sem noras, genros
sentada, ereta, soro, velha
quem empurrará a cadeira de rodas?
O problema não é a morte
é a
 vida, e viver sem sorte, sem família, sentada em uma cadeira de rodas com soro que já não pinga
olhando...
velhice...
a moça  me chama, sacode na minha cara seu
 sorriso mais brilhante
o exame, no enorme, branco, envelope
não é nada, como das outras vezes
vai para casa, descanse, tome os remédios, você é
 jovem
Vou caminhando
vou embora
a velha na cadeira de rodas fica
espelho
quero chorar
olho, lembro
soro, não pinga
por quê?
eu me pergunto
já é passado o dia, logo anoitece
sou jovem, vou melhorar
E a velha sentada na cadeira de rodas preta?
Espelho
Hoje não sorrio, procuro, enfim
a médica esqueceu algum remédio, digo-me no final
Entardeço todos os dias
Um dia o espelho,
não pinga,
será eu no final 

Compartilhar

poesia de 2014, quando fui ao hospital e estava sentada com uma senhora ao meu lado... o dia era 26/03, aniversário da minha irmã mais velha. Botucatu - São Paulo

Marcela Hebeler Barbosa
16/10/2018

  • 0 comentários
  • 20 visualizações neste mês
  • © Todos os direitos reservados