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Fragmentos da cidade

Primeiro

Eram seis horas, ele segurava um papel
olhava para o papel, e nos seus olhos podia-se ver
raiva e medo
Olhou para a fabrica e pensou,
nos nove filhos
olhou para o papel e,
pensou nas conseqüências
O ônibus parou
ele não subiu
Sentiu que se fosse
o desespero ficaria sentado ao seu lado
atormentando
Saiu correndo...
Doido varrido, maluco!
Era o que se ouvia,
outros olhavam para baixo, sabendo quietos
que cedo ou tarde eles também correriam
No escritório o executivo,
olha para baixo
era uma gritaria...
No escritório o executivo
olha para cima
E foi congratulado pela brilhante redução
de custos
Enquanto isso ele corria, corria, corria, corria
Tentava deixar o desespero para traz
mas, parece que o desespero
é mais rápido que a luz
e cega do mesmo jeito
Corria, chorava, suava
Tentando tirar a tristeza pelo suor
e vergonha pelas lágrimas
mas elas não saiam
Duas horas depois chega em casa
nove filhos, um cachorro, uma foto de mulher
nove filhos
Uma pneumonia, um tumor no cérebro
quatro desempregos
uma cadeia, uma anorexia, uma prostituta
uma foto...
Lembranças, o estupro, a farda, a impunidade, a morte
Foi deitar, dormiu
No meio da noite
o desespero pulou a janela, ele não percebeu
Veio acompanhado da realidade, e do lado de fora
tinha um vulto esperando,
os dois deitaram com ele
Amanhece o dia
no chão pulso cortado e veneno de rato

Segundo

Da janela ela olhava a rua
sábado à noite
bebe a cerveja, fuma o cigarro
transa com, um dois, três...
É sábado à noite
ela sai, maconha e cocaína, ela volta
vê a casa grande e vazia
dia de festa, umas duzentas pessoas
álcool, maconha, cocaína, nicotina
nunca viu a casa tão vazia
Ela olha é sábado a noite
ouve, murmurinhos
roupas, dinheiro, eu, eu, álcool, maconha e cocaína
sexo, sexo, ela chora
Falam para ela, sexo, dinheiro, álcool, maconha e cocaína
na mão, fluoxetina, sexo! Morfina
É sábado à noite
ela olha a rua,
carros importados, jovens, álcool, maconha e cocaína
ela olha a outra rua, gente indo trabalhar, gente trabalhando
é sábado a noite
Não tem festa, a casa esta menos vazia
ela sai, fluoxetina, cocaína
Do carro importado eles passam e vêem
no chão um corpo, sangue
no alto a ponte,
no chão na mão
sangue, cocaína e fluoxetina
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Terceiro

Ta anoitecendo ele passa correndo
rasga as ruas
entra no prédio abandonado
Sobe alguns andares
fecha a porta
pega a arma
olha a cidade
Tira a camisa, vermelha de sangue
vê a cidade, vermelha de sirenes
pega quatro balas, completa a carga
Quatro balas, dois mortos
Um homem, uma mulher
uma carteira, uma bolsa
trezentos reais, relógio e celular
na cabeça, raiva e medo se digladiam
na frente do prédio, dez viaturas
milhares de balas
Pensa em se entregar,
grita que vai se entregar
As sirenes cessam...
Atiradores se posicionam,
Ele sente-se livre no ar
poucos segundos se entregou,
ao ar
no chão, um corpo
ninguém soube dos sonhos


Quarto

A aula prosseguia, Grécia, Roma
França, Alemanha
Existencialismo, Materialismo, Pragmatismo,
Sexta à noite, segue a aula,
de história a filosofia
metafísica, ética estética
A aula prosseguia, muitos dormiam,
a noite avançava, escola de periferia
Termina a aula liga o carro e vai
muitas vezes imagina, sair de Gaza, para Tel Aviv
más, só rodava sete quilômetros
Quarenta alunos, dezessete homens,
Vinte e três mulheres,
Sete desempregados, três pequenos traficantes,
Oito pais alcolotras, duas mães prostitutas, nove famintos
Dois garotos de programa, duas prostitutas de cadeia
Cinco domesticas, duas vitimas de estupro,
Quinze assalariados, segunda a domingo dez horas de jornada diária
Cinco mortos, dois aidéticos, oito mães, dez pais
Quarenta pessoas, eram cinqüenta
Três mortos, três trabalhando
maldito Habib’s e Mcdonalds
Quatro mães.
Segunda à noite
fim da aula, liga o carro
E vai embora

Quinto

A esquina chorou
Sentiu falta, falta calor
A esquina chorou,
lagrima escorreu pelo meio fio
O carro importado pensou:
Como estava limpa a esquina
a esquina deve ter sido pintada
O ônibus estranhou:
esta faltando algo
A dona de casa sentiu
que o lugar estava vazio
Mudou algo, mas, somente a esquina
Chorou
O caminhão se omitia:
Só cumpro ordens
A terra molhou
Ele morreu
A cidade estranhou, mas só
A esquina chorou
A ossada se revela
chora

Gilson Amaro
03-200

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Gilson Amaro
11/05/2006