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O retrovisor

Tenho uma linda malinha mágica. Nela guardo todo o meu passado, com o respeito e beleza de todos os acontecimentos que me tornaram o que sou. As boas lembranças, as pessoas que tiveram a minha melhor parte, decepções, perdas, desafios, amores, amigos que se foram e principalmente um retrovisor.

 

Deste espelho cuido muito bem para que jamais seja danificado. Porque é através dele que posso rever algumas cenas quase esquecidas e sentir, como se fosse hoje, as emoções de antes com um toque de nostalgia.

 

Mas fico sempre alerta, porque este espelho deve ser mantido dentro da mala de grandes viagens e jamais fora dela. É apenas um reflexo e nele não há futuro.

 

  Há um apelo ( ou seria uma sedução?) de querer reviver o que não mais seria na mesma plenitude de antes.

 

Mera teimosia.

 

Então a minha serenidade de não resgatar nenhum fragmento do que fui para o meu dia de hoje é também sofrida. Porque às vezes as imagens de antes me confundem e geram certezas totalmente inexatas sobre a pessoa que fui e aquela que o tempo transformou.

 

A passagem do tempo é , acima de tudo, renovadora. E fora da minha malinha e do meu retrovisor há belos presentes, que são as pessoas que cultivo no meu agora! Estas pessoas não são reflexos, aliás têm um brilho intenso de uma realidade crua. São surpreendentemente humanas e fascinantes.

 

As minhas sementinhas de hoje são as novas personagens que a vida me traz para serem cultivadas com o que há de melhor em mim, florescem ao meu lado e me permitem uma colheita farta de amor, afeto, gentileza e cuidado.

 

Sou bem cautelosa na abertura da minha malinha de recordações para que a minha visão não fique turva como um ilusionismo passageiro. Abro, contemplo e fecho com duas chaves de segredos diferentes. E o meu retrovisor também tem uma proteção extra. Intacto. Seguro. Intimamente meu e de mais ninguém.

 

Porque também é preciso de muita coragem para novas histórias e construções!

 

 Agarro o presente, isso é emergencial em mim. Aprecio o sabor do novo, das sensações consentidas.

 

 As reconstruções mal acabadas com base infértil não sobrevivem à realidade de uma rotina desgastante que leva ao abandono.

 

*Sugiro um coquetel letal do que possa haver de melhor em mim!

 

 

Luciana Araujo

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Luciana Araujo
22/11/2015