A chuva e a memória

 

 

 
Chovia a noite, chuva leve ...
Lavando a rua e suas histórias;
E fatalmente a memória
À momentos me remete;
 
Cada gota ritmada
Sonolenta e discreta,
Uma paz me empresta,
E à generosa madrugada,
 
E nesse balançar sonoro
Das águas de um oceano
Suspenso flutuando nos ares,
 
Que em gotas no vento canoro
Nos sopram acertos e enganos,
E doces paraísos vulgares.
 
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Assim, eu caminhava na noite,
Feito um míope sem lentes,
Ou um semeador sem sementes,
E a Lua à minha fronte;
 
Pelas entranhas da floresta
Via se uma tenda imponente,
Sugerindo, em cores reluzentes,
A razão da alegria de uma festa.
 
O nome desta tenda era "Sonho".
Prelúdio de novos tempos,
Prenúncio errôneo ...
 
Imprevisível frescor risonho,
Sedutor e selvagem seus ventos:
- O sonho é o deus do sono ...!
 
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Deixando que a brisa me leve
Ao tempo que brota de dentro,
Solitária a viagem deste vento
Afiado, fugidio e breve. 
 
Feito um raio surge um quarto;
Dentro dele o aconchego,
Abre a porta quando chego
Frestas tolas do passado;
 
Passos leves pela sala,
Pés descalços e macios,
Frágil alma rara ...
 
Lábios trêmulos, sem fala,
A rígida disciplina do frio
Bate, fere e cala...!
 
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Com o pouco que tinha
Pude comprar,
Sem muito pensar,
Aquilo que queria;
 
Apostei na morte,
Nas noites infames,
E feito um arame,
Fiquei preso à sorte ...
 
Aceitei desafios
Que nada me trariam,
Tolo, apostei no vazio,
 
E com a chegada do frio,
A casa ficou vazia,
Envolta a um rígido inverno sombrio.
 
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E desce a noite chorosa
No uivo do cão na madrugada,
Nos passos leves na estrada
Na chuva que cai generosa,
 
Inundando a casa sem telha:
- Goteiras de encher baldes!
Aquilo que puder, salve!
Improvise com prego e madeira.
 
Feche as portas e as janelas
Com corrente e cadeado.
Dê-me o brilho das estrelas
 
Ao invés de traiçoeira
Visita sem horário marcado,
Que à tocaia se assemelha ...
 
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Apesar do frio feroz
E da alma quebrada e partida,
Bebi o melhor do vinho da vida
Diante de um futuro algoz.
 
A maciez da pele branca
Da mulher que serpenteia,
Desce a Lua, tece a teia,
Nessa ceia dá-se a dança,
 
E de repente, a luz entrou,
Encheu a casa,
E brilhou ...
 
Tão rápido, clareou,
E num bater de asas
Se apagou ...
 
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Gotas ritmadas
Que das nuvens se soltam,
Suas notas não tocam
Apenas o chão ou a madrugada,
 
Caem feito uma orquestra
De vento, água e barro;
De fungos, besouros, orvalho,
E o toque nas folhas da floresta,
 
Mas ao tocar nossos ouvidos,
Que pouco descansam na cidade,
Algo mais nos faz sentido,
 
A frágil segurança do abrigo,
A fumaça da memória, a idade,
Um dia, um instante, um amor, um amigo ...!
 
Ricardo - Mar/2015.

Ricardo Lemos
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