IRAQUE

O gorjeio soava alto;
O cenário montado;
Luz, câmera, ação:
Transmissão simultânea para o mundo.

Mas o canto ...
Impregnava o ambiente de uma sensação estranha,
De um sentimento de paz!
Como no amanhecer de outro dia repleto de normalidade.

A chuva de chumbo em contagem regressiva,
E aqueles seres abomináveis a cantarolar,
Destoando no quadro,
Retirando-nos a apreensão.

Os pássaros não foram avisados!
Na esquete montada,
Esqueceram dos pássaros,
Que continuaram a entoar suas canções!

Mas era natural que o fizessem,
Pois assim procedem todos os dias;
Errados estávamos nós
Que não os informamos.

Afinal, a canção inédita era nossa;
Com voz esganiçada,
Letra ressentida
E música imbuída do mais puro espírito humano.

A partitura era única:
Densa e monocromática,
Descompassada e alucinante,
Mas com brilho; muito brilho; exultante pirotecnia.

E eles quase estragaram tudo.
Gorjeavam alto;
Mas sem culpa;
Não foram avisados.

Invasão do Iraque. Não obstante o passar do tempo a cena não sai da minha cabeça. Acredito que nunca sairá. Ficam minhas reminiscências, num tom pastel.

São Paulo.