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OS ZUMBIS QUE NOS DEVORAM VIVOS


Escrevo esse texto, sob o efeito de forte stress.  Acabei de chegar do Largo da Penha, onde tive a infeliz idéia de ir para comprar o hélice do ventilador.  
Acontece que a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro decidiu acelerar as obras da construção da “Via Trans Carioca”, no caso específico, o trecho que liga a Zona Norte ao Aeroporto Internacional Tom Jobim. 
Eu tenho certeza de que a população da periferia do Rio de Janeiro vai se beneficiar enormemente com a facilidade de chegar ao terminal aeroviário, de onde poderá, mais rapidamente embarcar para a Suíça, Paris ou as Ilhas Gregas.  Não obstante a indiscutível importância da obra, na pressa de adiantar os preparativos para a copa do mundo, a Prefeitura não levou em conta o impacto causado ao dia a dia da população carioca. 
De fato, o trânsito estava um caos.   Num trecho percorrido anteriormente em doze minutos, eu gastei duas horas e meia.  Nos cruzamentos, o trânsito encontrava-se completamente parado.  Não haviam operadores de trânsito para organizar a bagunça e os motoristas, com á habitual educação, comum à população brasileira, aumentavam ainda mais o transtorno ao tentar passar, uma na frente do outro, ou um primeiro que o outro.
Motoristas se esbarrando, se xingando, se agredindo... estava uma verdadeira festa da cidadania!
Buzinas tocando, ônibus acelerando e todo o trânsito completamente estagnado... de repente, eu me senti como um personagem daqueles filmes sobre o juízo final, onde, movidos pelo ímpeto de  “salve-se quem puder”, as pessoas tentavam fugir, ao mesmo tempo, em todas às direções, mas ninguém conseguia chegar a lugar algum.
Sob essa forte impressão, depois de conseguir escapar do apocalipse rodoviário do Largo da Penha, parei para abastecer em um posto de gasolina. Logo atrás de mim, parou uma van, modelo Sprinter e como havia uma bomba vazia à minha frente e não havia o menor sentido em obrigar o motorista a esperar que eu completasse o abastecimento do meu carro, me adiantei, encostando na bomba seguinte, para que os dois veículos fossem abastecido ao mesmo tempo.  Isto feito, o frentista que à tudo assistiu, ao invés de iniciar o abastecimento pelo meu carro que foi o primeiro a chegar, premiou a minha educação, abastecendo primeiroos quase cem litros do tanque da Sprinter e nem sequer, colocou a mangueira no automático.  Acompanhou manualmente o abastecimento da van e só então, veio abastecer o meu carro.
Deve ter pensado:_ Se esse babaca estivesse com pressa, não dava a vez pro outro!
De fato, foi assim que eu me senti, um babaca!
Não reclamei, não comentei, não fiz nada... recolhi-me à minha insignificante babaquice.
Na volta pra casa, com os carros pulando, um na frente dos outros; sem poder ouvir a musica que tocava no rádio do meu próprio carro, por causa de outros motoristas que passavam ouvindo funk, num volume suficientemente alto para animar uma festa em um clube de grande porte, tive a impressão de que havia dormido durante cinqüenta anos e de repente, acordado em um mundo completamente diferente e confuso.
Nesse estranho e moderno mundo, ninguém respeita ninguém; Educação virou coisa de babaca e as pessoas só se preocupam com os próprios interesses, necessidades e confortos, pouco se lixando pros que estão ao seu redor.
Se eu quero escutar música, vou escutar bem alto.   Meus vizinhos que não gostarem das minhas preferências musicais, os que quiserem dormiu ou ouvir os próprios pensamentos, eles que se mudem... ou que se fodam!
“Os incomodados que se mudem”; “farinha pouca, meu pirão primeiro”, “leve vantagem você também”; “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é bobo, ou não tem arte”....
Os mais jovens podem até ficar surpresos, mas houve um tempo em que o mundo não era assim.  Houve um tempo em que se levantava para ceder o lugar para mulheres idosas ou grávidas nos ônibus;
Houve um tempo em que não se falava “palavrões” perto de mulheres ou crianças;
Houve um tempo em que os “mais jovens” respeitavam aos “mais velhos” (e vice-versa).
Nos meus tempos de moleque, quando nós estávamos jogando pelada na rua (naquele tempo, os moleques ficavam na rua, não para roubar ou para pedir esmolas no sinal, mas para jogar bola ou correr atrás de pipas), naqueles tempos, quando passava uma senhora, a bola parava (os jovens de hoje em dia podem até não acreditar num absurdo desses.  Mas a bola parava!) e se surgia uma senhora carregando uma ou mais “bolsas das Casas Sendas” pesadas, a molecada se oferecia para ajudar (e levavam as bolsas até à casa da senhora, não saiam correndo com elas pra própria casa).
Pode parecer esquisitice de velho. Mas no meu tempo a vida era assim.
“Dona Maria da Pipoca” era uma senhora de mais de sessenta anos que vendia pipoca na saída da igreja.   Ao final do dia, ela subia empurrando o pesado carrinho de pipocas ladeira acima.  A molecada corria para ajudar.  No final, ela dava um saquinho de pipocas para cada um.
_ Sal ou doce?
_ Doce, Dona Maria!
E a vida era simples assim...
No meu tempo, meninas de doze anos, não mantinham relações com homens de trinta ou quarenta anos, nem se tornavam mães aos treze;
No meu tempo, não havia BlackBarryi, smartphone, nem nootebook;
Naquele tempo, meninos e meninas descobriam o sexo juntos (nem tanto descobriam, mas ficavam curiosos), brincando de médico, papai e mamãe ou pique-esconde.
Como era bom brincar de pique-esconde!
Para desestressar, liguei a TV para assistir a um bom filme.
No primeiro canal, uma jovem apatetada tinha que escolher entre uma família de vampiros e uma tribo de lobizomens;
No próximo, um vírus criado pelo exército americano, contaminou toda uma cidade e os mortos saiam andando para comer o cérebro dos vivos... no final, o exército jogou uma bomba nuclear na cidade e matou a todos, mas o vírus escapou e contaminou o resto da humanidade;
No canal seguinte, os demônios lutavam ao lado da humanidade para impedir os terríveis anjos de exterminarem toda a vida na Terra;
Mudei outra vez, e um lunático saía matando, à torto e à direito, qualquer um que passasse pela sua frente,  sem a menor motivação ou justificativa(o filme se chamava “o assassino da serra elétrica 15”, e o mais interessante é que o assassino usava uma motoserra, movida a gasolina)...
Na minha última tentativa, o diabo possuiu a um boneco que saiu matando todo mundo que encontrava.
Acho que eu comecei a entender como esse mundo se tornou tão caótico...
Resumo de tudo: da próxima vez em que eu for abastecer, vou parar na bomba e garantir a minha vez e, quem vier atrás, se quiser que espere, como todo o mundo faz!
A verdade é que, por mais que você tente, quase nunca consegue mudar o mundo;
  Mas o mundo, quase sempre, consegue mudar você...

 

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BRUNO
18/10/2013

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