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DESENCONTROS - (conto)

[Ilustração não carregada]

 

 

 

Os dias pareciam tediosos, a buscava, e a encontrava insatisfeita, melíflua, distante. Geralmente introspectiva, ausente, como uma sombra a percorrer a casa. Se não falasse com ela, provavelmente, não obteria qualquer reação. 

No início, havia a recepção na sua chegada, o via com alívio, como se estivesse entediada de ficar apenas na companhia da empregada, então curtiam aqueles momentos a dois, ela o ouvia sobre o seu dia e seus afazeres, parecia entreter-se com seus comentários.

Com o tempo,  até mesmo aqueles momentos rareavam, parecia estar só em casa, falando alto com a intenção de ser ouvido por ela, até surpreender-se ao vê-la aturdida na leitura de um livro, ou fazendo algo sozinha,e alheia. Aos poucos, sua presença parecia indiferente.

Mudara hábitos, saía mais cedo dos compromissos, tentando suprir a ausência de que ela sempre reclamava, pretendendo surpreendê-la, estar mais próximo. Com os olhos da esperança pensava enxergar pequenos avanços, a estimulava nas conversas, buscava, obsequioso, um sorriso, obtendo, quase sempre, um riso, breve e apagado.

Chegara a imaginar que estivesse com algum problema de saúde, embora fisicamente não demonstrasse qualquer desconforto. Talvez deprimida, sugeriu-lhe que convidasse uma das primas para visitá-la, ou mesmo fosse fazer uma viagem para visitar a família, moradores em uma pequena cidade interiorana. Parecia animada quando esta possibilidade era sugerida, porém não tomava a iniciativa de viajar, e o assunto ficava no esquecimento.

Algo a incomodava, sabia-o bem. Nada tinha da estudante animada que conhecera em um ardoroso namoro, em que pareciam viver um para o outro. Animada, tinha projetos e sonhos, assuntos que a movimentavam, e o encantavam. 

Espaçavam as saídas noturnas do casal, não que ele não insistisse, mas ela parecida desestimulada de sair de casa. Como ,dizia ele, se você queixa-se de tédio, mas nega-se a se divertir ? Vá entender as mulheres, repetia em voz baixa de si para si.

Ocorria que nas saídas, apenas ele tinha seus assuntos a falar, ela apenas uma paciente ouvinte. Tinha ele a narrativa de um dia de trabalho, de suas realizações, da sua rotina cheia de acontecimentos úteis, quanto a ela,  sentia-se amortecida, sem nada a acrescentar de si.

Teria ele errado em alguma coisa ?  A princípio ela se aborrecia pelos costumeiros atrasos e reuniões, típicos de sua atividade de empresário. Extenuava-se a explicar motivos pelos acontecimentos, pacientemente parecia entendê-lo e ouvi-lo. Acabavam juntos, compartilhando momentos íntimos e aconchegantes.

Todavia, no decorrer dos tempos, nem mesmo reclamava mais dos inconvenientes imprevistos que a deixava solitária. Parecia não mais importar-se com aquilo.

Aos poucos, estavam sob o mesmo teto, juntos e distantes.

Certo dia, não a encontrou em casa, não tinha  o hábito de sair sozinha, não sem antes avisá-lo, razões tinha, então, para preocupar-se.

Sobre a mesinha de centro, com um cinzeiro de cristal sobre um papel, uma carta, na verdade uma narrativa, como um conto...

Falava de um pássaro feliz com sua vida, de cantar e de voar, para onde bem quisesse, sendo os dias, uma verdadeira emoção, livre, realizado com a sua vida e sua liberdade. Certo dia fora aprisionado em uma gaiola finíssima, elegante e bela, grande e confortável, mas restrita na sua dimensão, farta de ração de boa qualidade, protegido das intempéries climáticas e dos predadores, uma segurança  fausta, não mais haveria de buscar o seu próprio sustento, arriscando-se em terrenos ermos, imune aos perigos. Então ele minguou, não cantava, não brincava, e sua rotina de prisioneiro o asfixiava...

“Hoje, meu querido, o pássaro abriu sua prisão, renegou a vida segura e alçou voo”..

Abateu-se sobre ele a tristeza, parecia sentir-se culpado por não conseguir viver bem com seu grande amor.

Na separação, ela fez questão de não querer nada do patrimônio, dispensava a pensão e qualquer direito.

Tempos depois a encontrou, por acaso, ao passar por uma rua, no centro da cidade

a esperar um ônibus, com pastas nos braços, levando  processos. Estacionou o carro mais a frente e voltou até onde ela estava.

Cumprimentaram-se, falaram amenidades, como quem receassem tocar nos assuntos do passado, pareciam velhos amigos que casualmente se encontravam. Ele tinha prevenção em falar qualquer coisa, administrava as palavras, não queria perdê-la de vista para sempre... Ofereceu uma carona, como ameaçasse chuva, o coletivo estava atrasado, acabou aceitando.

A levou até um bairro distante, parando frente a uma casinha simples. Os olhos dela estavam radiantes, vivos, como quando a conheceu. Conteve-se para não abraçá-la, sentia que ela ainda era o amor de sua vida. Não entendia por que tudo dera errado.

 Parecia que ela entendia seu olhar, suas dúvidas...

Deu-lhe um beijo fraterno em seu rosto, aconselhando-o a buscar se conhecer.

Ele finalmente descobria porque estava deitado naquele divã falando de si e tentando se entender melhor...

 

leia 1° parte

 

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PUBLICADO EM LIVRO NA ANTOLOGIA CONTOS DE AMOR & DESAMOR, EDIT CBJE RIO DE JANEIRO-RJ, JUNHO 2014.

EDILOY A C FERRARO
24/02/2012