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A CASA MAL ASSOMBRADA-(conto)-

A Casa Mal Assombrada
 
                                     Coisas estranhas aconteciam naquele local, há muito que o abandono se fizera presente nas imediações daquela sinistra residência. Era uma casa aparentemente comum, de porte mediano com fachada em estilo colonial, talvez a mais antiga daquela rua. As crianças e muitos adultos evitavam-na, principalmente no período noturno, diziam que era mal assombrada. Ninguém sabia muito bem o motivo do medo coletivo, mas as histórias e lendas eram incontáveis. Numa delas falava-se que um escravo aparecia todas as noites arrastando uma corrente entre lamúrias clamando por perdão de sua patroa. Havia outra de que o ultimo proprietário se suicidara depois de matar toda a família de seis pessoas, porem todos os corpos inclusive o dele nunca foram encontrados, mas diziam que durante a noite era possível escutar gritos e pedidos de socorro, possivelmente das vitimas da tragédia. Eram historias apavorantes, contadas pelas pessoas que moravam próximas daquela sinistra habitação. Julio era um garoto destemido, assim dizia, e desafiava os narradores em tom de deboche, fantasmas não existem isso é invenção desses velhos que não tem o que fazer. Porte atlético, baixo teor intelectual, no vigor de seus dezesseis anos ele ironizava as histórias de forma pejorativa, estava sempre cercado pelas garotas e alguns amigos que o viam como uma espécie de líder. Certa vez, quando conversavam no intervalo das aulas escolares, Cesar, que era muito parecido com Julio no quesito arrogância, para impressionar Priscila, uma linda jovem de cabelos dourados, corpo escultural, que usava muito bem seus atributos para provocar uma disputa entre os dois, propôs ao “rival” uma incursão noturna à “casa misteriosa”. Com a aprovação da jovem, que se igualava aos dois oponentes em frivolidade e ainda o incentivo dos “amigos” submissos determinou-se o dia e a hora para adentrar o “palácio dos horrores”. Sexta-feira, vinte e três horas e cinqüenta minutos, a pouca iluminação nos arredores do mausoléu sinistro causava arrepios nos adolescentes que se aproximavam para a nefasta visita, alguns deles pensavam se aquilo era realmente necessário. A brisa noturna parecia balbuciar palavras nas mentes incautas e o pavor acelerava os batimentos cardíacos da prole insana. Julio e Cesar iam à frente e procuravam demonstrar tranqüilidade, mas se fosse possível ler seus pensamentos estes revelaria toda a fragilidade mental e o pânico que se instalara nos cérebros limitados dos “indomados valentões”. O restante da turma caminhava bem juntinho, quando de repente um barulho assustador que se assemelhava a uma corrente sendo arrastada seguida de um pranto lamurioso fez com que se agarrassem uns aos outros e com os olhos fechados pedissem a proteção de Deus. Cesar e Julio tremiam, mas a posição de líderes impedia que recuassem, empurraram o portão já semi-aberto do estranho domicilio, estavam entrando, quando uma voz rouca que parecia vir das profundezas da terra indagou de forma cavernosa: Juuuulioooooo, o que você quer aqui? E você Cééésaaarrrrr, porque veio perturbar os moooortos? Julio ficou estático, os olhos arregalados, as pernas não obedeciam ao comando cerebral, queria correr, mas o medo travara seus movimentos. Cesar por sua vez, ao tentar correr tropeçou em uma saliência do piso e derrubou o portão com o peito, caindo em cima do restante da turma que também apavorada tentava desaparecer dali. A correria foi geral e só pararam quando já estavam a uma distancia considerada segura por eles, foi quando perceberam que o Julio não estava presente. Ninguém queria voltar para saber o que acontecera com ele, mas era preciso, afinal de contas eles eram “amigos” ou não? Descansaram um pouco e decidiram voltar. Cesar perdera a posição de líder, principalmente quando perceberam que suas calças estavam “molhadas”, como não estava chovendo deduziram que ele não era tão “corajoso” como dizia ser. Julio precisava de ajuda, seria preciso vencer o medo para ajudar o amigo. Deram-se as mãos, fizeram uma prece em voz alta e retornaram para resgatá-lo. Quando se aproximavam novamente do funesto logradouro sentiram um cheiro forte de fumaça e puderam ver as chamas enormes que já consumiam a residência macabra, mas cadê o Julio, todos se perguntavam, a vizinhança despertara e muitos curiosos observavam o espetáculo dantesco que se formara. Como tinha acontecido aquilo? Cadê o Julio? Talvez tivesse fugido de medo como todos eles haviam feito, mas antes botara fogo na casa. Enquanto isso a corporação de bombeiros que havia sido acionada por algum vizinho chegava ao local para debelar o incêndio misterioso. Ficaram apreensivos observando o trabalho dos profissionais e temerosos imaginando que o Julio ao atear o fogo tivesse ficado preso dentro da casa em chamas. Os primeiros raios solares coincidiram com o término do pesadelo, fora extinto a ultima centelha do misterioso incêndio. Os adolescentes permaneciam ali, estáticos e apreensivos, torcendo para que o amigo não fosse encontrado entre os escombros do solar destruído, o que de fato aconteceu. Todos ficaram aliviados e voltaram para suas casas, estavam exaustos e com sono, seus pais já deveriam estar preocupados apesar de estarem acostumados com o comportamento noturno deles, costumavam trocar o dia pela noite. Cesar foi acordado pela mãe com uma pergunta que lhe trouxe um arrepio na espinha. A mãe de Julio perguntava pelo filho, pois ele não retornara para casa naquele dia e ela já procurara por todo o bairro, tinha conversado com seus amigos, mas não obtivera resposta e o Cesar era a ultima esperança de encontrá-lo. Assim como os demais envolvidos na infame aventura da noite anterior ele também não sabia do paradeiro do amigo e pressionado pela mãe acabou narrando os detalhes da empreitada infeliz. A polícia entrou em cena e vasculhou cada centímetro do bairro, começando pelo que sobrou do incêndio inexplicável, mas nada foi encontrado, não havia o mínimo vestígio da presença de Julio naquele local. As buscas se intensificaram, através do rádio, panfletos, carros de som, jornais, TV, tudo em vão, o Julio simplesmente desaparecera. Passaram-se dias, meses, anos, porém, o mistério permanece, nunca mais viram o Julio. As ruínas do sinistro casebre ainda estão presentes naquele bairro sombrio, as histórias continuam e o Julio, agora faz parte da lenda...
 
Pedro Martins
11/04/2011        
                                    

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Pedrinho Poeta - Pitangueiras-SP-
11/04/2011

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