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CONFUSOS SENTIMENTOS ( CONTO )

 

Antes de ali chegar, sofria, sim, mas tinha uma razão, um pretexto. Agora era o nada, nenhuma esperança, tímida que fosse como outrora, definitivamente fora a última tentativa. Sabia que jogava uma cartada definitiva, os ventos sopravam contra ele,  talvez um blefe, uma sobrevida.

Marcaram o encontro por insistência dele, ela bem que regateava, parecia querer poupá-lo do inconveniente, mas a insistência venceu. Chegara bonita, roupas novas, alinhada, como sempre, ainda mais para seus olhos sofridos, certos da despedida iminente, aquilo a fazia ainda mais bela, insinuante, desejada. Como brincam conosco os sentimentos, pensava consigo mesmo amargurado. Embora a quisesse, somente agora, que a perdia, ela crescia em suas retinas, parecendo valer mais na perda que na conquista.

A troca de olhares já diziam mais que as impronunciadas palavras, na verdade nada mais havia a ser dito, repetia-se a fita por teimosia, ou por gostar do sofrimento. Era um surreal diálogo mudo, em apelos surdos, em reclamos inúteis, um brado sufocado por uma causa perdida. Todas as reivindicações surradas pela volta de um relacionamento superado, esgarçado. Morto aos poucos, pela rotina e descaso, dele para ela, depois de um para o outro. Contudo, quando dela para ele, parecia não suportar, ela valorizava-se sobremaneira, a queria como nunca quis, justamente quando perdia todas as possibilidades de tê-la. Angustiava-se por ser deixado, esquecido, preterido, pior, substituído, sim, pois ela não o teria recusado caso estivesse vago seus sentimentos. Talvez não confessasse para poupá-lo, as luzes que a irradiavam davam conta de uma felicidade incômoda , viva e exuberante, sem ele.

Não a queria por pena dele, isso nunca, refreava as lágrimas, insistentes em aparecer. Estava amoroso, temendo por ouvir o mesmo discurso de negação, fazendo ver que mudara, que a amava ainda mais, como ele mesmo nem se dava conta antes. Convencê-la, contudo, presença ali e pensamentos em outro mundo, ou em outro alguém, era amargo, ela que sempre se abria em sorrisos ao vê-lo e ao desejá-lo, parecia ausente, morta se não estivesse iluminada por uma estranha euforia prestes a eclodir, e por respeito, ou piedade, refreada.

Inútil e covarde citar momentos, tempo juntos, como se reivindicasse direito adquirido por aquele coração ultrajado antes e liberto agora, para seu desespero pessoal. Era ele que estava enfraquecido, abatido e vencido por um inimigo invisível, talvez mais belo, melhor que ele, amante dedicado, morrendo aos poucos em seu orgulho ferido, fazendo comparações onde se apresentava inferior, num inferno a queimá-lo e a reduzi-lo. Brigava a esmo, contra um provável adversário que não conhecida, não era assumido, embora presente naquela felicidade que vislumbrava naquele semblante tão conhecido e amado.

Fazer-se forte, estando enfraquecido, aviltado, alquebrado e sem argumentos. Ele já não era uma promessa, era o ontem, o real. O outro tinha como trunfo o ser a novidade, o sonho, o amanhã... Estava em desequilíbrio na disputa, sabia-se pequeno, temeroso do desfecho daquele encontro. Tudo que poderia assacar em sua defesa já era conhecido, seria apenas a renovação de uma hipoteca nunca quitada, nunca satisfeita. Ela estava ali como detentora de seus créditos, não disposta a abrir mão de seus sonhos, nos quais não o incluía mais... Patético alegar coisas em desfavor do pretenso adversário, sempre negado por ela, mas vivo em seu olhar esperançoso e carinhoso. Uma sombra a incomodá-lo, inacessível por não vê-lo, uma briga com um inimigo ausente. 

Com ela tivera uma história de vida, nem sempre bem vivida, mas um tempo de convivência, infelizmente, a jogar contra ele.  O coração dela pedia o novo, o inusitado, a renovação das esperanças aparentemente desfalecidas no convívio a dois. O outro uma esperança, quanto a ele um convite ao mesmo, na renovação de promessas de uma nova relação, um remendo. Diz o dito popular: leite derramado não volta para a leitera. 

Tratava-se naquele massacrante diálogo mudo, em troca de olhares furtivos, oscilando entre a compaixão dela por ele, a angústia dele por vê-la distante, a dor da perda por outro alguém, melhor sem dúvida que ele, o aniquilava...

Quis retê-la um pouco mais, fazendo-a sentar-se novamente, delicado. Queria protelar aquele adeus definitivo, tirar aos poucos os aparelhos daquele relacionamento morto, como esperando, debalde, que ressuscitasse por milagre, num átimo de esperanças. Era protelar a dor, o não saber o que fazer depois da confirmação  daquilo sacramentado, sepultado. Tiveram sonhos, o que foram deles ? Sumiram na poeira das rotinas, nem valiam como defesas, detalhes moídos, somados não teriam consistências... Apenas aquele olhar, não de soberba, mas de respeito por ele, o crucificava penalizado, acusando-o de não ter lutado pela manutenção de tanto carinho recebido e malbaratado...

 Um leve roçar na face, último aceno de delicadeza e consolo, aquele perfume tão dela, aspirava querendo retê-lo, era pouco diante ao muito que já viveram...os lábios tão próximos e distantes, ela tão perto e tão longe dele.

Deixava o recinto em uma última saudação breve e se distanciava como uma ave liberta para viver a sua imensidão e liberdade.

Acompanhou seus passos com os olhos úmidos, não mais retendo as lágrimas vertidas, talvez como capricho da posse, sentimentos invertidos, quando se perde a quem se tinha, por desamor desprezado, dóe a dor da ausência. A idéia de que está feliz longe de seus braços, mágoa confundida em saudades, expressão egoísta, ilusória crença que longe de seu domínio, inexistam luzes e alegrias...

 

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** Publicado em livro em antologia de contos, editora CBJE, Rio de Janeiro, RJ.

EDILOY A C FERRARO
26/03/2011