O canto da cigarra

O canto da cigarra

Em jardins transplantados
por doações duvidosas
transitam travestidas rosas,
resquícios de olores ofegantes
oriundos de flores mutantes,
engodos constantes
a planear reles beleza arredia
que não se deve apalpar,
oculta do sol, 
da luz que vacila,
de borboletas vadias,
ávidas para sugar,
de colibris atrevidos
vestidos para beijar,
caminho entre canteiros
destilando o que sinto
-meu eu verdadeiro-
em simbiose com o absinto
na fase amarga, intransigente.
Destilo overdose
numa eclosão do excesso,
drogas que não ingeri 
e a toda hora vejo
tendo que engolir,
estática, sem reação,
impotente a qualquer ação...
Derrotada, cruzo os braços.

Verão, ensurdecedor, o cicio da cigarra
sobrepondo-se a outros sons, 
calando-os.
Impondo seu canto forte.
Anunciando a própria morte.

Carmen Lúcia