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A BOLA DA VEZ.... Conto - final.

[Ilustração não carregada]

Naquela oportunidade fazia uma obra de reforma em meu apartamento, razão de ter acompanhado os fatos de perto, assistido a soberba de um garanhão e a depressão de um traído, simultaneamente.  Era me difícil conceber a promiscuidade marital dela, visto ser funcionária idônea e  antiga em conhecida e renomada empresa de cunho social beneficente, além de usar seus finais de semana dedicando-se a ganhos extras como confeiteira, currículo que só a fazia engradecida junto a mim, conhecedor do histórico de pulador de cerca do injuriado.  Portanto, todas aquelas acusações pareciam-me descabidas, e insistia com ele na defesa indireta dela. “ Você não a conhece, a tirei da boca do povo quando me casei, mesmo tendo um filho solteira. Sendo minha prima, a família ficou dividida, a parte que me alertava estava certa, só eu não acreditei do que ela fosse capaz’... Tudo teve início, as desconfianças, quando o celular dela ficou desligado na tal festa, o horário extrapolado, as desculpas desencontradas e o sexto sentido do traído aceso, sabe-se lá por quais desconfianças, minúcias que não foram desvendadas por mim. É que a convivência por anos com alguém, nos faz conhecer uma pessoa além das aparências, até a adivinhar o que ela pensa. E, intramuros, cada qual sabe a temperatura do relacionamento, mantido oculto pelas conveniências sociais, fica o dito, roupa suja lava-se em casa, sem assistência de terceiros. Ligando suas desconfianças, farejando o perigo, talvez medindo as atitudes dela com a régua do próprio comportamento dúbio e desleal, tornou-se um enraivecido incapaz de raciocinar com alguma lucidez.  Tal circunstância foi agravada com o infeliz comentário do seu auxiliar na obra, sem se dar conta dos efeitos do relato maldoso. Tendo sua irmã presente à festividade por trabalharem juntas, mencionou de que a esposa do infeliz estava aos abraços com o colega de trabalho, apimentando as tonalidades da conversa de que trajava uma roupa ousada para uma mulher da idade dela, sendo casada. Em detalhes, como toda a maledicência manda, citava que falavam do shortinho apertado e insinuante mostrando parte da bunda da desavergonhada, a deliciar-se com o moço, visivelmente mais jovem, na piscina.  Todo o meu esforço para evitar maiores estragos ruíram de vez, já o tinha furibundo parecendo um touro bravo, ferido, em arena de tourada, os olhos injetados de ódio e despeito. A remoer toda sua trajetória conjugal, alinhavando momentos cruciais em que suas suspeitas, reais ou imaginárias, em outras ocasiões não comprovadas, alimentavam o crepitar da fogueira íntima em que se sentia consumir. E onde estavam os filhos diante a esses acontecimentos inusitados ?  Ao lado da mãe, possivelmente não acreditando na versão enlouquecida dele. Era mais pai que marido, tanto se empenhou para ver a filha como modelo  profissional e o garoto jogador de futebol, ambos tiros n’água; a moça deu-lhe três netos de pais diferentes, apenas um de casamento sacramentado, com um homossexual que a deixou logo cedo e foi morar com o companheiro. Depois veio o segundo, de um angolano assassinado antes do nascimento do bebe, e o terceiro de pai não conhecido, parecendo ser de descendência asiática. O garoto que imaginou levar para um clube internacional em seus delírios de grandeza, não seguiu a carreira almejada pelo pai, talvez mais ideal paterno que dele próprio, não passando de amador em clube pequeno. A esses infortúnios culpava a companheira por não apoiá-lo em suas iniciativas a favor da prole com ele constituída; e de pensar somente no enteado que chegou a cursar faculdade de Direito, lamuriando-se de que às custas de seu sacrifício pessoal.

 Assim o acompanhei nestes momentos de infaustos onde o chão lhe faltava, alternando condescendência com a irracionalidade de seu orgulho ferido, parecia um vulcão prestes a entrar em erupção. Temi por seus possíveis desatinos, daqueles que nos horrorizam cotidianamente na mídia nos boletins policiais. Precisava de um ombro amigo, quase me aleijou por usá-los, continha as lágrimas por temer aparentar fraquezas, o certo é que o veneno experimentado era de degustação amarga e desconhecida, sempre servido à companheira, jamais antes a ele mesmo. E, tal como me afirmava categoricamente, quando até eu mesmo duvidava, a então ex esposa já estava maritalmente com o vigilante e colega de serviço, apesar de ter mulher e filhos, em novo endereço. Temendo pelo pior com o decorrer dos fatos, intercedi junto a ela, ponderando para apaziguar a situação, tentando convencê-la de voltar atrás na reclamação feita, papel de bombeiro apagando incêndio, ou de padre em confessionário relevando fiéis infiéis. Muitos argumentos depois, pensando no bem estar dos filhos e possivelmente do julgamento do mais velho, criado pelo marido, acertamos uma concórdia para o dia da audiência, o que não se deu. Dia antes, domingo, festa no quintal comunitário, aniversário de um neto. A brasa ainda quente, bebedeira e o pavio curto pelas injúrias recentes, tudo conspirando contra, e o pau comeu novamente. Festival de xingamentos e a turma do deixa-disso acrescida da maioria dos que curtiam a desgraça alheia como diversão...Assinou o depoimento como quem se vinga do ex-marido, devolvendo-lhe a moeda da infidelidade com os pruridos de uma senhora aviltada em sua honra.

 Com o tempo as feridas abertas deixam cicatrizes mas não incomodam mais como antes; fui procurado por ele, anos depois do acontecido.  Respondera o processo em liberdade tendo que comparecer ao fórum mensalmente, no que negligenciara deixando de assinar a presença por vários meses. Como precisava tirar uma segunda via da identidade extraviada, temia ter alguma “bronca” pendente .  O processo havia sido arquivado meses antes; já sem receios de qualquer possível abordagem policial, e de documento novo, voltava a ser o astro nas noites, bailando nos salões exibindo suas habilidades e encantando femininos corações iludidos... E a ex continua fazendo bolos para ajudar nas despesas com a sua nova paixão.

 

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EDILOY A C FERRARO
23/10/2017