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O flagelo de um visionário

Sou uma centelha no escuro firmamento
Sombrio, que me deflora
A gargalhar, inutilizar minhas virtudes
De um príncipe exupérrico sem virtù
À mercê da infiel fortuna
Cadavérico palhaço em um espetáculo que demora
Sejam bem-vindos ao genuíno fingimento

Meu eu-lírico tão empírico é tabula rasa aos olhos do cínico
Faço bondade, hospitalidade, viso retorno, pois não sou Cristo
Aos quatro cantos, no forno, silenciado eu grito, por isso existo
Aquele que desviu meu timbre disse que a servidão é um dever cívico
Terra Sonâmbula e sonífera ilha pensei que eram obras do mundo onírico
Anestesia enebria incisiva distopia rumo ao olho do abismo
Que hipnotiza a multidão, cujo silêncio retumbante é o último refrão

Lamento pelos revolucionários, tão ordinários e martirizados
Por terem a minha doença crônica foram, como cães, sacrificados
Para que? Pelo que? De pó para pó, verme para verme, morrer
Gado ou manada? Lobo ou alcateia? Punhos ou joelhos? Viver
O eu ou um mim? A seda acaba e a sede alucina os prantos
Terráqueos, vocês são apenas corpos, com copos cheios nos campos
De vossas carnes a serpente oculta alimentarei
Hedonismo demoníaco do jardim perdido é a lei!

A métrica e a estética limitam o conteúdo
O coquetel hidrogeniônico deixa todo o mundo mudo
Mundo mudo pelo medo, mas às vezes calado é poeta
Uma hora a realidade choca e ilumina a toca na ocasião certa
Fósforo Prometeu, do Olimpo, o fogo aos homens
Lascados, como a pedra, queimam só seus abdômens
Em meio à legião urbana com tempo perdido somos tão jovens

Eu avisei, não sou o dono da verdade, mas sei quem pretende ser
De boas intenções o inferno está pavimentado
Se gaba no gabinete o nosso algoz anistiado
Vou-me embora para Brasília, lá sou amigo dos Batista
Reze um terço pela crise que dizimou a virtude submissa
Permitimos que a credulidade nos faca viver como faquir
Perceber que a impassibilidade fez de Pirro nosso maior mártir

Missionário extraterrestre em uma tribo surdo-muda
Sua sombra em seu quarto é o que ouve seu discurso
Pela janela assisto o fantástico show da vida holística
Dada por uma ignorante inconsistência apocalíptica
Do banquete de pérolas que dei aos porcos, você morreu engasgado
Arrependo e me orgulho desse ato, sacrifício desperdiçado
Assim jaz trajetória de um grão de areia que um dia já foi pedra

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Manoel Flávio Kanisky
22/07/2017