Site de Poesias

Menu

O SEGREDO DE GERUSA ( conto parte 2 final)

[Ilustração não carregada]

...

A casa grande tinha cinco quartos com banheiros, arejados, cercada por uma varanda bem posicionada de amplas vistas, os móveis de bom gosto e sem exageros, privilegiando mais espaços do que acessórios decorativos. A ela foi indicado um dos aposentos, estranhou pela deferência, ao não lhe designarem uma acomodação de empregada, como seria o esperado. Seus poucos pertences tomavam apenas parte do guarda-roupas e da cômoda a ornarem a dependência, também composta por uma cama de solteiro, um criado mudo anexo com um abajur simpático. Aquilo parecia o máximo para quem sempre teve apenas o essencial.  As surpresas não terminavam, havia empregadas na casa, então por que contratá-la?  Também não lhe foram dadas as recomendações e as funções que desempenharia, talvez esclarecidas no decorrer da gestação da patroa, lembrando-se ela de que também estava gestante, aquilo a incomodou, será que era do conhecimento da senhora seu estado de grávida? Por certo ignorava de que o pai era seu próprio marido, o que teria ele alegado para a esposa ao contratar uma gestante?  Em breve estaria proeminente seu ventre, suas atividades iriam requerer mais cuidados ; ele sabia que seria pai, e dele foi a iniciativa de levá-la para sua casa. Eram tantas as dúvidas a assaltá-la que deixaria as coisas acontecerem para ter suas respostas. A indefinição do que faria na casa a encabulava, parecia uma hóspede tratada com inusitada delicadeza. Recusou-se, delicadamente, a fazer as refeições na copa, junto dos patrões. Sentia-se mais a vontade na cozinha, junto às empregadas. Não insistiram, por certo consideraram sua timidez e poucos modos nos tratos com os talheres e cardápios mais sofisticados. Quis ajudar na cozinha, precisava desempenhar alguma função, senão acabava louca em suas interrogações sem respostas, nisso não permitiram. Ai foi que deu-se conta de que a patroa sabia que ela estava gestante, ficou evidente na admoestação para que não fizesse nada que exigisse esforços, dado ao seu “estado”.  Mistério que a intrigava, ainda mais com a chegada de um homem gorducho de valise e estetoscópio no pescoço, era o médico, possivelmente para consultar a patroa. Mas não, ela fora chamada perante ao doutor rechonchudo. Homem simpático e alegre, fez-lhe algumas perguntas, consultou seus pulmões, prescreveu algumas vitaminas, e confirmou sua gravidez já perto dos quatro meses.  Dona Lúcia assistiu a tudo, estranhamente maravilhada com a confirmação, recebeu o receituário e ordenou que fosse aviado na farmácia. A partir dali Gerusa passou a ser tratada com especiais cuidados, como se fosse uma rica porcelana que poderia se quebrar. O casal se esmerava em cuidar de sua saúde e bem estar, poupando-a de maiores esforços, o que a entediava a passar as horas sem nada por fazer. Era dinâmica, sempre tivera sua rotina, agora parecia estar proibida de exercer qualquer atividade. Passava a ficar claro de que a patroa sabia que a criança gerada era do próprio marido, do contrário por que tanto desvelo com ela,   praticamente uma estranha ? E, se ela estava grávida, por que seria tão tolerante com uma relação extra - conjugal do esposo?  Procurou especular com as colegas de trabalho, discretas ao extremo. Mas se mostraram surpresas ao ouvir dela que a patroa estava gestante. Chegaram a alegrar-se com a notícia, pois deixaram escapar que a mesma, desde a última frustrada gestação, não poderia mais engravidar. As coisas começavam a fazer sentido, Gerusa passou a considerar que fora engravidada para dar ao casal uma criança, não importando a eles seus sentimentos, era apenas um meio de conseguirem seu intento. Então todos os cuidados a ela dispensados faziam sentido. O patrão agiu tendo certeza de que ela se calaria aos seus, por medo de enfrentá-lo, então seu plano sórdido estava desvendado. Mais uma vez teria que suportar aquela injustiça, serviria como uma barriga de aluguel, hospedando um ente do qual não poderia sequer amá-lo como seu. Para a família pediam que escrevesse, periodicamente, uma carta, sabiam que ela omitiria sua gravidez, não desejariam que alguém aparecesse para vê-la gestante, assim a distância ficava mais tolerável para eles. Sempre havia a promessa de que voltaria, assim que o filho da patroa nascesse.

O patrão, depois da notícia da gravidez, não mais a procurou, aliás, evitava ficar a sós com ela, possivelmente para não ser interpelado; quanto a Lúcia, pelo contrário, vivia próxima, dispensando atenção, não raro permitindo-se alisar o ventre já crescidinho com inexcedível carinho. Parecia que a grávida, efetivamente, fosse ela, a tal ponto de chamar o bebe de “nosso filho”. Curiosamente, o berço foi escolhido pelo casal sem a presença e mesmo a opinião da parturiente, que só tomou ciência quando da entrega do móvel, instalado no quarto do casal. Assim como o caprichado enxoval do bebê, escolhido à revelia da verdadeira mãe. Claro então o zelo para com ela, não exatamente consigo, mas com quem trazia em suas entranhas.  Abismada e arisca, já previa o final daquela história, a teriam enquanto não nascesse a criança, depois... Ora, para a sua família ela voltaria após ajudar a patroa em sua gestação, tudo dentro da lógica. Quanto a ela, desembaraçada da barriga, voltaria ao anonimato de camponesa. Continuaria a manter o segredo, sem outra opção. Usariam a sua maternidade para suprir a deficiência da patroa; parecia inexistir como pessoa, sequer a consultaram e pareciam indiferentes a essa questão. Era como um objeto, sem sentimentos, vontade e voz. Lembrava antes uma procriadora, uma vaca leiteira, inoculada pelo sêmen patronal. Nem parceria era, pois ela não teria parte alguma.

Após o nascimento do menino, saudável, de parto normal, a mãe funcionou como ama de leite até o desmame, o fruto de sua gestação trouxera paz e alegrias àquele casal, missão cumprida. Ficava com o pequeno no colo apenas naqueles imprescindíveis momentos da amamentação, observada atentamente pela mãe usurpadora, como enciumada daquelas tetas fartas e providas do nutritivo leite. Não a destratavam, se fosse seria alguma coisa, uma reação, menos que isso, sentia a indiferença, como se ela estivesse cumprindo uma simples obrigação devida.

A mesma charrete que a trouxera meses atrás a devolvia ao convívio dos seus, sem qualquer suspeita. Aquele interregno em sua vida seria sempre um lapso de tempo do qual deveria esquecer, mesmo que seu amor materno a sufocasse em lágrimas de saudades de seu filhinho que jamais a conheceria...

 

 

 

Compartilhar

Meu 93º texto publicado em livro de antologias de contos, a maioria pela CBJE-Rio de Janeiro, lançamento abril 2017.

EDILOY A C FERRARO
27/03/2017