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UMA EXPERIÊNCIA PARANORMAL (conto)

[Ilustração não carregada]

A notícia do desaparecimento do amigo o consternou além do que poderia supor, a primeira vez que a morte o visitava de tão perto; já faleceram parentes, idosos, nunca a fatalidade chegara tão perto, de alguém jovem, de sua faixa etária.  Segundo o relato dos que se encontravam com o falecido, estavam em uma praia deserta, região de grandes pedras, quando, nu, resolvera tomar sol no corpo todo, momento em que uma onda imprevista (  soube-se, por pescadores, de que não era tão ocasional assim, mas desconhecida pelos frequentadores eventuais), arremetida contra o rochedo em que se achava o desequilibrou e foi arremessado nas profundezas, não sendo encontrado o corpo.
Cursavam o antigo curso ginasial, jovens cheios de vida e de sonhos para o futuro. A missa de sétimo dia foi sofrida, acompanhada em choros convulsivos, cicatrizes que marcaram as lembranças de todos.
A tragédia o marcou particularmente, passando a ter estranhos sintomas, jamais, antes, perceptíveis. Em algumas oportunidades tinha a sensação de acordar e sentir o corpo letárgico, imóvel, sem comando de sua vontade, a pressentir a presença de alguém, e sons estranhos, não visíveis, visto não se mover. Adormecido no sofá da sala, após o almoço, despedira de sua mãe que ia visitar a tia em outro bairro, onde pediu que ela tomasse cuidado, sem saber exatamente o porquê da advertência. A sensação de imobilidade e da impossibilidade de se mexer, acordado, mas sem domínio do próprio corpo, além de sentir a presença de pessoas estranhas a comentarem em tons de galhofas sobre o aviso dado à mãe. Uma parada brusca no coletivo que levava a genitora por pouco não a arremessara fora do veículo, falando com ele assim que voltou para casa. Aquelas sucessivas ocorrências, perto de uma crise nervosa e depressiva, levaram-no ao desespero, e a comentar com sua mãe, assustado.
Preocupada com a situação, ela comentou com uma conhecida, sendo aconselhada a irem a um centro espírita, onde o filho da mesma desenvolvia suas faculdades mediúnicas. A situação era surreal, nunca se imaginou em assuntos tão estranhos a ele. Mas a resolução do problema era maior que a incredulidade, e dar fim àquilo era premente.
O bairro era distante do centro da cidade onde residia. As reuniões ocorriam dentro da casa de uma senhora clara, de aparência europeia, e, ao contato com os manifestantes através dela, mais precisamente de um senhor de fala humilde, a pitar um cachimbo, de sotaque caboclo, aparentando bondade e atenção para o seu relato. Tinha a ajuda de uma moça, que transcrevia em um papel, ajudando no entendimento da fala nem sempre audível do comunicante.  Foi solicitado pela entidade de que, se queria ajudar o amigo, teria de ir a uma igreja católica, durante sete segundas-feiras, rezar e acender uma vela em cada ida... Ao término da última visita retornasse e teria a manifestação do próprio desencarnado. Adiantou de que ele se encontrava confuso, sem entender o que estava acontecendo, e sua ajuda seria uma caridade. Tal foi feito, cumprido religiosamente.
Aquela reunião esperada era também uma experiência única, misto de ansiedade e curiosidade. Em uma mesa, coberta por uma toalha branca, a senhora de tez clara, a princípio recebeu o bondoso velho, para depois, mudando a voz, em ânsias de afogado, e de se expressar com dificuldade, estabelecer a comunicação com o falecido. A mensagem deu-se  em falas entrecortadas e agônicas, segundo explicação posterior, devido às impressões do afogamento sofrido; agradeceu a interferência,  e que, graças a isso, ele conseguira ser resgatado e esclarecido sobre a sua atual condição.
No caminho de volta, dentro do ônibus passou a sentir ânsias de vômitos, como as cenas presenciadas com o comunicante, colocando a cabeça  para fora para evitar sujar o recinto, momento em que percebeu que a lente de contato rígida de um dos olhos se perdera. Ao verificar isso, reclamou da sorte, e lembrou-se de que fizera o bem e saíra no prejuízo...
Na manhã do dia seguinte, ao se dirigir ao emprego, trabalhava em um departamento de um Banco, tinha um aviso no relógio de ponto para se dirigir ao setor de recursos humanos. Ficou preocupado, visto não primar pela pontualidade, achando que seria advertido. A notícia não poderia ser melhor. Em sorteio entre os funcionários, evento que se realizava anualmente, e era de seu desconhecimento, fora contemplado com um prêmio em dinheiro... Após refletir consigo mesmo, achou que estava sendo compensado pela perda da lente de contato da noite anterior...
Teve um sonho com o amigo falecido; o via sentado em um muro baixo, conversando com outros, estava pálido e com olheiras fortes, e, ao ser visto por ele, veio ao seu encontro que, sobressaltado e com medo, desmaiou.
Não mais teve as sensações de torpor e de imobilidade do próprio corpo, experimentada em várias oportunidades anteriores. Mas a experiência vivida fez com que não visse os fenômenos paranormais com ceticismo, e isso mudou a sua visão da vida, inteirando-se sempre do assunto com respeito e interesse. Com a maturidade e estudos sobre o tema, compreendeu que a comunicação com o extrafísico será, no futuro, visto com naturalidade. Vencidas as barreiras de preconceitos religiosos, o homem conhecerá a verdade que o libertará de muitos tabus e receios.

* publicado no livro Contos da Meia-Noite, editora CBJE, Rio de Janeiro-RJ, outubro de 2016.

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EDILOY A C FERRARO
14/11/2016