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CENAS DE VIDAS ( conto)

[Ilustração não carregada]

O martelar naquela parede, removendo o cimento, tarefa rotineira daquele profissional, já acostumado ao oficio. Apenas aos olhos dela, a mãe, as cenas se sucediam com uma atualidade dolorida, inesquecível.  Era a exumação do corpo do filho, passados já mais de três anos do sepultamento, vestígios do que fora seu menino, ido naquele dia fatídico... Cemitério público, retirar os restos mortais fazia-se necessário para dar vaga a outros. Ainda o viu inteiro, a pele cobrindo o esqueleto a desfazer-se em contato com o ar, por um instante o vislumbrou novamente, até enrugar a pele e só restar os ossos, colocados em um saco de plástico preto.
- Escuta, vou entregar essas roupas, não demoro. Fique em casa, não saía...
Bastou que um amigo passasse e o convidasse para um mergulho no riozinho que ficava próximo, entre a obediência maternal e o divertimento, fraquejou o pequeno, não vendo nada de impróprio em banhar-se, voltaria logo. Não voltou vivo, vítima de uma congestão assim que mergulhou na lagoa, fazia pouco tempo que almoçara.
Assim que ela retornou, avistou estranha aglomeração em frente de sua residência, uma casa de cômodos, conhecido como cortiço, habitação comunitária e barata. Um tremor a visitou, um pressentimento ruim a enregelar seus nervos, um pesadelo do qual queria acordar e livrar-se como a um sonho pesado, indesejado.
O policial fora curto e grosso, como se fosse natural informar alguém da tragédia com um ente querido, carregando nas palavras, insultuosas, acusadoras, como se relapsa em cuidar do filho. Assim se sucedeu naquela data fatídica, que queria esquecer e voltava, amiúde, com as dores pulsantes, feridas não cicatrizadas... Viu-se pequena, desamparada, tristemente só.

Deixara o pai dos três filhos, uma menina, a mais velha, e os dois garotos, buscando uma vida menos incerta, tendo uma residência fixa e não viver como nômade, armando barraca em circo mambembe, na vida errante. Precisava ter um local determinado para as crianças frequentarem uma escola, coisa impossível se continuasse na troupe. Deixava o companheiro, homem de circo, em favor dos filhos. Apaixonaram-se na juventude, sob os protestos inúteis da sua mãe e do padrasto, alertando-a sob os presságios da má sorte ensejados em uma caminhada insegura e de preconceitos contra os circenses, mas ela seguiu os ímpetos de sua juventude sem divisar riscos.  Com o tempo passou a atuar nos palcos, como atriz improvisada, fazendo papéis curtos em peças teatrais, fazendo pirulitos para serem vendidos nas arquibancadas. Havia dias bons de bilheteria, faturamento melhor, então todos se alegravam e comemoravam, como se o sucesso fosse contínuo, o que não era. Passou necessidades, teve os filhos, e tinha que tomar a decisão definitiva. O parceiro não sabia fazer nada além de ser artista, exatamente o palhaço, sua vocação, e nisso não parecia ter dúvidas do caminho a seguir, mesmo que sem a família.

Mudara-se para São Paulo, em bairro não distante do centro. Passou a costurar roupas, ofício então requisitado, assim varava madrugadas minorando as necessidades financeiras da família. A filha foi morar na casa de um irmão, em outra cidade, menina ainda, e já atuando como empregada disfarçada de sobrinha, sentindo as dificuldades da distância dos seus e de se sentir uma estranha em casa alheia, explorada e sem salário, sob o pretexto de estudar e tendo roupas usadas de outros para uso próprio.
Ao tempo em que rememorava suas memórias sofridas, aquela mulher de porte pequeno, valente em suas atitudes, contava seus percalços não com amargura mas como barreiras vencidas, sempre cheia de esperanças e coragem. Os filhos, já adultos, trabalhando, já eram três para suportarem as despesas, a casa de cômodos do cortiço também ficou no passado, já morava em apartamento de dois dormitórios, no 15º andar de um edifício classe média, bem localizado. O aluguel era dividido, tinha uma pensionista, e dava almoços em casa para alguns funcionários de um escritório. Não mais costurava, daquele período ficou um leve calombo no cangote, fazendo-a mais baixa na estatura. Se o dinheiro era contado, não havia as carências já vivenciadas, usufruía até de algum conforto com eletrodomésticos modernos, um televisor em cores, máquina de lavar, até uma máquina de escrever portátil, paga a prestações e dada de presente à filha. O mimo foi resultado do pagamento de um carnê, com direito a sorteios dominicais em programa de auditório na televisão, durante um ano todo, para, ao final, retirar uma compra. Na correria do dia a dia, entre cuidar da casa e de servir as refeições na sala pequena, ainda tinha a companhia de uma cadelinha branca, fiel escudeira.
As conquistas, sempre através da labuta, vinham com o sucesso dos filhos, o primeiro carro adquirido pela filha bem empregada, e que, depois de muitos anos, também conseguia a conclusão do estudo universitário. O rapaz não quis seguir estudando e tinha um bom emprego como representante comercial de um laboratório farmacêutico.

Na parede, uma tela tamanho médio, a óleo, presente do ex marido fantasiado de palhaço...Reminiscências de um tempo de desafios, descobertas e agruras...

 
(em memória de Odete Siqueira Cavalcanti, minha tia materna)

 
 

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EDILOY A C FERRARO
22/09/2016