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FÉRIAS ESCOLARES-(Conto)-


Férias Escolares-(Conto)
                                    
                                    A última semana de aulas fora estressante devido às provas finais para averiguar a capacidade escolar de cada aluno. Fui bem, como sempre, nem estudar precisava, tinha boa memória. Agora começava o período de “descanso” que durava até meados de Fevereiro, cerca de dois meses e meus planos já estavam mais ou menos traçados, iria me divertir muito. Dezembro de 1972, aos onze anos de idade é só diversão, assim eu pensava, mas meu Pai não, naquele tempo criança já trabalhava (e não morria por isso) para ajudar no sustento da família (palavra em extinção?) e a colheita de amendoim já começara, azar o meu, fui introduzido no “itinerário“ que iniciava às 5h e terminava às 17h, de segunda à sexta-feira, ainda bem pensei, terei pelo menos os finais de semana livres. O primeiro dia foi terrível, minhas mãos ficaram em “carne viva”, sem contar a dor nas costas pelo “agacha e levanta” necessário para arrancar o precioso grão do solo. Meu Pai até teve pena quando me viu chegar a casa na cor marrom, mas meus irmãos também tinham mudado de cor, então estava tudo bem, em três dias estaria acostumado com a situação e assim foi.

                                     Por mais energia que se tenha, aos onze anos, arrancar amendoim é f..., mas não reclamei, nem adiantava, respeitava muito o “Velho” e ele sabia o que estava fazendo. Meu Sábado foi de recuperação, comecei a dormir às quatro da tarde e acordei no Domingo, às 6h, “inteirão”, pronto pra curtir a folga com os amigos, bater uma bolinha, nadar no riacho e terminar a noite na praça paquerando ou indo ao cinema (havia dois na cidade, hoje quase não tem nem a praça) para assistir um bom “bang-bang” à italiana com Giuliano Gemma ou Anthony Steffen, e ainda havia dois clubes dançantes (dus humirdes e dus abastadus) hehe. O som dos anos setenta era bem diferente do “baru(gu)lho” dos dias atuais, havia musica para todos os gostos e era nesse embalo musical que as coisas aconteciam, já imaginaram o mundo sem música? Quando a vigésima terceira hora do Domingo chegava a gente começava a ficar triste, pois sabia que o fim de semana já era e a segundona(vai Curintia), no meu caso vinha com um recado: o amendoim te espera!!!ai ai, minhas costas já começavam a doer.

                                    Foram dois meses de “atividades extrativistas solíferas” (traduzindo:- rancando minduim-hehe) chique, né? Ao final do mês de Janeiro meu martírio teve fim, eu já estava parecendo o corcunda de Notre Dame e demorei uns dias para recuperar a postura de um “homo erectus”, mas não reclamo, ganhei um dinheirinho extra que ajudou nas despesas de casa e isso era gratificante, porque todos colaboravam para que a Família fosse sempre preservada. Recordo-me principalmente das manhãs domingueiras quando acordava com o som que vinha do rádio de pilha que o “Velho” pendurara no tronco de um “mamoeiro-(pé de mamão) desativado” pela ação do tempo e que só não fora arrancado porque justamente servira a este propósito. Ali também Ele fixara um pequenino gancho onde adaptou um espelho e se barbeava ouvindo “Tonico e Tinoco”, Tião Carreiro e Pardinho, Liu e Léu, Lourenço e Lourival e tantos outros ícones da verdadeira música sertaneja.

                                  Tenho saudades, da presença física, dos conselhos, das historias que ele nos contava de sua adolescência, isso é um legado maravilhoso que não posso esquecer. Sou muito grato a “Ele” e pelas convicções espirituais que possuo sei que iremos nos reencontrar um dia. As férias terminaram. Baterias recarregadas era hora de retornar aos estudos. O ano de 1973 prometia, Raul Seixas começava a fazer muito sucesso com a irreverência de suas músicas e meu coração era envolvido por vibrações esquisitas, principalmente quando me encontrava com uma linda criaturinha de olhos negros, cabelos longos e um sorriso encantador, mas essa já é outra história...

 
Pedro Martins
21/032014

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Aos onze anos, durante minhas férias escolares, quando planejava descansar e me divertir, meu "PAI" apresentou-me a melhor ferramenta para vencer os obstáculos que viriam pela frente em minha existencia terrena, o TRABALHO...por isso sou muito grato a ELE... (Saudades) Pitangueiras, relembrando a importancia do meu Pai...

Pedrinho Poeta - Pitangueiras-SP-
24/03/2014